Arthur phantasiava-lhe a brincar destinos de princeza, ter palacio entre parques, desenhado por Garnier, um coupé tirado por cavallos brancos, um marido conde, que fosse loiro e a adorasse, e primeira ordem em S. Carlos. Vêl-a-hia atravessar a cidade em landeau, na primavera, ás tres horas, sob a tepidez d’um ceu amoroso, toda setim malva e plumas brancas, sem fazer caso dos cumprimentos d’um pobre artista como elle. Ella ria com esforço áquella ingratidão phantasiada, com um oh! de creança resentida. Apoiando no parapeito as mãosinhas brancas, ia-se debruçando para o vêr melhor; a gotta coral do seu labio tinha momosinhos rubros de quem chora—e calados n’um embevecimento, olhavam-se muito serios, com alguma idéa profunda e nupcial. Coincidia com estas tagarellices dos dois, uma preoccupação de Judith em se fazer senhora. Declarava todos os dias estar mais alta, ir engrossando de quadris. Viera-lhe uma febre de ménage, passava dias arrumando, desdobrando roupas, pondo balayeuse nos vestidos usados, marchando como um I para se dar o aspecto imperativo. Todo o seu empenho era representar uma dona de casa; e para isso, como via a mamã fazer, era admiravel desenvolvendo preoccupações, projectos, argucias e pequenos ralhos de cozinha. Viam-na atravessar os quartos com braçados de roupa, muito impertigada, o ar severo, e virar-se de repente a vêr se o vestido ia arrastando. Por não conservar os seus dentes d’algum dia, a pobre mamã tinha de comprimir espevitadamente os beiços, para chamar alto. A careta stereotypada nada tinha de captivante; pois assim mesmo Judith a imitava! Com creanças então, que adoravel miniatura de comedia! Judith pretendia adivinhar todos os incommodos ou appetites d’essas pequeninas poeiras, através das birras mais inesperadas. E mil peças, dançava com ellas, erguia-as ao alto esticando os braços, balanceava-as nos joelhos, estava constantemente a penteal-as, a beijal-as, a deital-as como uma Virgem, no regaço, a cantar para que dormissem, a despil-as, a vestil-as, a inventar-lhes incommodos, como pretexto para fazer brilhar as suas habilidades de pequena mamã. Se Arthur estava presente, estes ensaios para esposa eram mil vezes repetidos, exagerados e postos em relevo, n’um sentimento de pedanteria innocente. Por vezes, no meio d’alguma scena difficil, os olhos de Judith levantavam-se sobre o esculptor, havia n’ella um retrahimento de se vêr observada, e ia-se embora de corrida. Todas estas preoccupações se trahiam n’um tom encantador de caricatura, e contemplando-a, a gente pensava com finos prazeres de bric-á-braquista, n’essas figurinhas d’esmalte tão vivas, walsando no oiro das bonbonnières, fugaces, illuminadas no galante estylo pastoral do seculo dezoito. Mas não raro era tambem um esquecimento do papel, em meio d’alguma postura mais de proposito composta. Então a creança dava de repente um salto, uma risadita, e quebrado o encanto, reapparecia na sua graça plumosa e ingenua d’ave do paraiso.
Os momentos com ella repousavam o artista d’outros fatigantes dias levados na faina de procurar modêlos, fazer moldagens custosas, desbastar a rija constructura dos blocos; e mil attenções postas em bem ferir a estatua esboçada, retocar as coisas miudas da fórma, fremitos de roupas, serpentinado das carnes, todos os pequenos tics d’onde resulta na estatua a volatilisação da vida. N’uma população degenerada por decrepitudes de raça, vicios de grande cidade, privações de pobreza e demasias de trabalho, o esculptor mal achava corpo que valesse a pena copiar. Na sua missão d’artista, em certos dias, era-lhe forçoso então percorrer os centros vitaes da população, os caes, os mercados, os arsenaes, os quarteis, os navios e as fabricas, a buscar entre os pelitrapos e va-nu-pieds do trabalho, as fortes linhas harmonicas dos modêlos.
Era assim que se lhe deparava aqui um pé bem lançado e livre, no garoto da rua ou servente de pedreiro; além as espaduas e braços d’Atlas, estriados, membrudos, sob a camisola de lã dos catraeiros côr de cobre; torsos de damnados miguelangescos entre os forjadores das officinas; e traços de Antinos n’uma ou n’outra cara enfarruscada, adolescencias doces de punhos e jarretes, seios e gargantas fulvas como o bronze tonkin; pedaços de natureza nobre, descorrelacionados do resto e esparsos sem ordem nem logica, por figuras vulgares, amortecidas nos excessos da labuta quotidiana.
E as difficuldades para trazer ao atelier qualquer d’esses donos de um trecho vivo de esculptura, artimanhas a empregar, longos preludios de explicações, promessas de boa gorgeta, uma canceira atroz de persuasões e engodos! As mulheres escandalisadas do convite, injuriavam-no em pleno mercado, rudes ferreiros riam-se d’elle com chascos; e poucos queriam seguil-o!
Alguns ao fim de quatro sessões ou cinco, fatigados de pousar, abalavam e não vinham mais. E Arthur desapacientado, mortificado, nervoso, ulcerado de coleras, destruia o que estava feito, cahindo em longos tedios de ociosidade.
Arthur vivia como um asceta, sósinho em casa entre as ferramentas de officio, desenhos e gessos classicos, servido por um gallego extraordinario de avareza, e visitado por tres ou quatro amigos de seu pae, que raras vezes appareciam. Aos domingos, se acontecia haver numero, formava-se um chinquilho pacato, em que Albano era parceiro do gallego, contra o Arthur que fazia causa commum com o amigo Flores, ártista pintor. Amigo Flores era o jovial folião, que os francezes já modelaram em caricatura, no zinco dos castiçaes baratos, com a palheta em riste e o seu chapéo de pluma derrubado á banda. Era um sêr filiforme de cara quixotesca, bigodes fluctuantes e pera em cauda de rapoza, alto, republicano e cheio de zumbaias, grande cabelleira ao vento, feltro derrubado, botina torta, e umas taes denguices com damas!... O orgulho da sua arte, forçava-o a attitudes photographicas, mão no peito e uma perna arqueando á frente da outra; ou então descoberto, como quem pousa para a historia, tendo um ar sonhador, os dedos na gaforina que de crespa lhe nimbava a cabeça, olhos em alvo, como a meditar o plano d’um quadro. Quando o contradiziam, amigo Flores tinha a phrase:
—Não rebata as minhas asserções!
Era um jacobino temeroso, que nunca se cançava em referir os seus esforços pela grande causa.
Tomando a pera nos longos dedos d’esqueleto, fazia notar:
—Quando vier a nossa republica, a sua primeira obra será dar-me um beijo e dizer-me assim, obrigado, querido pae.