—Mas porque essa avareza?—E o esculptor a insistir, a não largar! Albano vencido, tomou-lhe o braço, mas sem deixar cortar a rosa. Era o cahir da tarde, foram conversando em direitura ás portas, já o sol amarellecia nas arvores.
—Homem, disse Albano, pondo o lenço em torno ao pé das suas preciosas flores, é que se dá uma coisa singular.
—Por exemplo? fez Arthur como quem se não deixará embair.
—Não me dirás, porque é que pondo nós hombro a hombro de todos os sêres que nos são uteis, um medico que lhes vigia os menores actos, desde que nascem até que morrem, não dispendemos eguaes cuidados no que toca á nossa propria conservação? Por mil sabios artificios de cruzamento e alimentação, chegamos a conglobar n’um cavallo as qualidades de força, elegancia, ligeireza e bravura, que separadamente faziam as caracteristicas de muitas castas diversas. Ha botanicos que se esgotam a procurar em flôres, em tuberculos e fructos, os effeitos de coloração e turgecencia mais inesperados. Conheces a lenda das tulipas azues, tens já visto peras de seis kilos, sabes d’aquella casta ingleza de bois quasi exclusivamente feitos de musculo, e não te são estranhas por certo essas maravilhosas aristocracias de cães, pombos viajantes e animaes ferozes convertidos á domesticidade, traduzindo o resultado de dezenas e mesmo centenas d’annos, da tenacidade e sciencia do homem.
Pois emquanto dos typos estancados, das fórmas envelhecidas, e da nutrição quasi morta, fazemos jorrar impetos de seiva nova, forjamos modêlos viris de raça, e nucleos de mundo capazes de viverem outra eternidade, nunca pensámos seriamente em restaurar, decrepitas gentes que somos, a pobre familia humana, pelo mesmo processo por que depuramos um cavallo, uma tulipa, ou crystallisamos artificialmente um diamante.
—Os elementos de ensaio tão passivos abaixo de nós, não offerecem a mesma docilidade no bicho homem, disse Arthur, e o estudante encolheu os hombros sem se importar com isso.
—Resulta que a depauperação dos sangues, a senilidade dos corpos, e envilecimento consequente de tudo aquillo que originava força, andam tão horrivelmente adiantados, que em breves seculos meia familia greco-latina ter-se-ha extinguido inteiramente. Por agora desapparecem familias e classes; mais tarde irão na voragem nações e povos inteiros, pela immobilidade das allianças e acção corrosiva das aptidões morbidas, que todos os dias engrossam de numero e violencia. Já olhaste bem Lisboa? Vale a pena como estudo de monstruosidade. Por cem mil habitantes, trezentas mil enfermidades, tres enfermidades por habitante. Velhas molestias do tempo das Conquistas, trazidas de todo o mundo em despojo de vassallagem, copulando ha quatro seculos através da nossa pobre raça, teem gerado uma tropa extravagante de males que pullulam com vida propria, divergindo conforme a cachexia do tronco que apodrentam, multiplicando-se, resistindo á therapeutica, disfarçando as suas operações, indo a degenerar por graus e descobrindo n’uma recahida, a guela hiante das baterias, dando cabo de nós com tanta elegancia, tão scientifica, tão precisa, tão artistica, tão mathematicamente, que achamos graça á partida, e ao carrasco sorrimos de gratidão, no ultimo alento.
Todos os annos esta aprazivel cidade brinda os seus habitantes com uma febre nova, e á similhança das publicações com gravuras, que distribuem chromos no fim dos volumes, anda ella preparando para d’aqui a tempos tambem, a sua febre colorida, venho a dizer amarella.
Em doenças nervosas, vê tu a inesgotavel variedade e a exhuberancia de padrões! É tudo que vae do tic nervoso, tão patusco, as convulsões macabras da eclampsia. O divertido é então approximar duas affecções pelos reophoros, isto é, um macho e uma femea, para depois ir estudando a incommensuravel progenie resultante. Conforme estatisticas, Lisboa tem hoje por este processo dez vezes mais doidos que pessoas de siso, e mais ha quem chame idiotia ao siso d’essas pessoas.