—Mas que florido elle vem, que primaveril! disse Arthur com grandes expansões. Farçante! Vem perpetrar bouquets fóra de portas, para ninguem suspeitar dos amores em que anda enredado....
Albano ficou a desempoeirar com o lenço, as incommensuraveis botas de duas solas em que velejava. E disse:
—Fui-me vêr um homemzinho áquella quinta, que passa a vida cultivando rosas. Typo curioso de velhote, amador de boas loiças, todo requintado, hei de apresentar-te. Imagina que tudo é do seculo passado em casa d’elle, mobilia, porcelanas, creados, musica, até os gatos. Mas boa gente! Então carregam-me sempre de rosas. Repara que vem aqui soberbos exemplares, hein? E elle, uma paciencia!... Sorvia o perfume das flôres uma por uma, dando pequeninas aspirações sem contacto nas petalas, saltitando d’esta para aquella, como se andasse a educar uma pituitaria intelligente, afim de extremar gradações n’um mesmo perfume subtil. As rosas eram deslumbrantes na verdade, pelo tamanho, pela côr, pelo capricho das volutas petalares, exquisitas nuances de tecido, e caricioso setim dos ninhos interiores, descerrados como escrinios de duqueza ao peso das gottas d’agua que a manhã, boa amiga, lhes chorára no seio ao passar. As escarlates eram colossaes como dhalias, d’um funebre velludo se olhadas de través, com manchas de pellucia cereja destacando das convexidades á luz, e longinquos perfumes onde a narina se embotava e perdia. Uma graça aristocratica idealisava as amarellas, perfumadas de violeta e chá hysson, côr de gemma nos seios, e com petalas quebrando polyedro á volta dos estames, velados n’uma cupula trifoliar de pequeninas peças. E as brancas então, que virginaes!... Pareciam esgotar-se em esforços, ainda as mais abertas, para conservarem fórmas pudicas de botão. E retrahindo-se, tinham castidades de rapariga nua, que depois do banho, toda em perolas d’agua, contra si mesma se cerra, e defende e furta ao amor mythologico dos cysnes. No coração d’essas maravilhosas Ophelias, arfavam roseos tons de carne viva, ondulações molles de femea, e immaculadas frescuras de adolescencia loira, dirieis uma coquetterie de donzella ao apear no primeiro baile. Arthur ia cortar uma das brancas, quando o estudante detendo-lhe os dedos, disse bruscamente:
—Essa não. A outra escarlate é mais bonita, corta.
Mas Arthur preferia aquella branca, qualquer outra, não se importava, mas branca. Não havia de ir pela rua com um paspalhão côr de baeta na botoeira. Albano porem, insistia birrento:
—Corta uma amarella, dizia elle, leva duas mesmo, ess’outra vermelho-esmaiado, mas nas brancas não toques.
Arthur teimando a querer uma rosa branca, perguntava-lhe rindo:
—Trata-se de entretecer corôa mystica para alguma irmã hospitaleira da tua paixão? Mas que extraordinario scelerado!
Houve mesmo uma lucta entre os dois.
—Larga! implorava Albano. Tenho apenas seis rosas brancas. Uma que leves faz falta.