—Pois vou já convocar o Mortalha e Onça, clamava possesso amigo Flores, rompendo por essas ruas esbaforido, sem mais querer ouvir.

Se concluira alguma obra, convidava toda a gente a ir dar opinião, o Arthur, um porta-machado das suas relações, que lhe servira para modêlo de Herodes n’uma Degolação de Innocentes; o gallego avaro, e quando Deus queria, o proprio Albano. Amigo Flores pintava taboletas, frontarias de loja, e casas de jantar de dez palmos, em terceiros andares restaurados. Onde quer que a sua brocha tocasse, a serra de Cintra era certa, com dentaduras do castello dos Mouros, os torreões da Peninha e damas de azul em pic-nics na relva. Se lhe observavam tal destempero n’uma fachada de talho ou tabacaria, amigo Flores tirava altivamente o seu feltro, esbandalhava a trunfa com os dedos de esqueleto...

—Não rebata as minhas asserções!

E a liberdade com que advertia o esculptor das incorrecções de cinzel, a fereza supraciliar com que o chamava de parte para lhe dizer que aquelle pé, alli, não estava a seu gosto; os modos de velho mestre com que lhe rendia elogios, dando-lhe conselhos, que fosse indo, nada de desalentar, e trabalhasse para ser um ártista!...

Porque no intuito de reconfortar esse talento de rapaz na sombra, pretendia impôr-se como exemplo de lucta, afinal triumphante.

—O caso é, trauteava elle afiambrando a perna, que cheguei á verdade e tenho hoje côr. Custou, mas posso orgulhar-me, venci. Homem, basta um caso—tal campo d’alfaces pintei a fresco n’um retiro de Rio Mouro, que todas as manhãs n’aquella casa, é um poder do mundo de grillos!

Arthur ria benevolamente, dava-lhe cigarros, ia jantar com elle ás hortas nos dias bonitos. Mas o estudante não o podia aturar, mesmo ganas de lhe remendar os fundilhos com lama da bota direita. E encontrando-o donairosamente na rua a cahir das calcitas amarellas, e cambando a bota de joanetes pelintras, passava de largo acenando-lhe com a cabeça calva.

—Vivendo, obrigado. Inda não rebentou o subterraneo de polvora, paciencia! Mas bem bom, a coisa marcha. Saudinha.—E virava a esquina, concertando os oculos.

Uma tarde, flanava Arthur por entre as boscagens do Campo Grande, fumando cachimbo n’uma d’aquellas indolencias d’artista, que abrem lenitivo no meio dos grandes trabalhos, quando ao virar d’uma alea, deu de cara com Albano que trazia um ramo enorme de rosas. Havia talvez quatro noites que o bohemio não vinha á brasserie, coisa de espantar o esculptor, affeito como estava á regularidade desesperante do companheiro.