—Todas as raparigas vivem de flôres, mais ou menos.

—Effeitos poeticos no caso! Com a differença que a Judith mastiga n’ellas, engole-as, suga-as com um deleite inexprimivel. É mesmo o unico prato para que não perdeu o appetite. Isto de pequenina; mas o vicio tem ido a crescer. Talvez lhe evitem hemoptyses, por isso lh’as deixo comer: tudo tem as suas compensações. Desde que está nubente, nos periodos criticos, sabes, certos dias de raleira, ou em tendo febre, aquillo torna-se n’uma sofreguidão feroz, uma voluptuosidade de larva horticola, e põe-se a devorar cabazes de rosas como uma esfomeada. Em casa fazemos provisões, deves ter notado. Por exemplo, nunca ficamos sem ellas de noite. É como quem sustenta um passaro. Mas custa caro esse luxo excentrico. Por vezes o mercado está exhausto. Immediações de bailes ricos, ou vesperas de dia santo, pedem um dinheirão por meia duzia de flôres fanadas. Então a mãe vem dizer-me: se fosses vêr os Fonsecas, eram velhos amigos de teu pae, inda assim não estejam doentes...

E ahi venho em peregrinagem á quinta do meu amigo do seculo passado, aturar-lhe as manias, ouvil-o sobre porcelanas, familia rosa, familia verde, as cinco côres de Ming, e revestiduras craquelées, e as cascas d’ovo, e potiches du Barry, e um labyrintho de classificações, de fôrmas extravagantes, de fabricas, de seculos e biographias de fabricantes celebres, de fazerem bocejar o mais authentico christão. Então pergunto pelas collecções de roseiras, fallo do tempo que faz, finjo interessar-me todo em coisas de jardim, aterro-me das bichas-cadellas comerem os pobres botõesinhos novos, digo especies ao acaso...—E a Judithzinha, quer saber a velha Fonseca, inda gosta muito de rosas?—Oh, sempre!—Fonseca, o teu braço, diz a boa matrona. Ouves? Inda gosta muito, pobre menina! Vá, mandemos-lhe um bom ramo, que fazem as rosas n’essas roseiras?—E os dois adeante, ajoujados como quando eram novos, borboleteando pelas ruas da quinta, parando em frente das roseiras mais raras, colhem, colhem.—Se eu tivesse uma filha! medita em voz alta a velha n’um suspiro esteril, e o Fonseca todo risonho vae-lhe dizendo que aguarde, tudo póde ser... Ella tem o seu riso doloroso de senhora só, e pondo-lhe no hombro, coquettemente ainda, a touquinha branca, muito florida de laços roxos, diz-lhe n’uma censura amigavel:—Promessas sempre tu tiveste. Mas só promessas, grande mau!—E trago de lá um soberbo braçado de rosas frescas, com muitos beijos e muitos recados para as mulherzinhas, chova ou vente, seja inverno ou seja verão. Que diabo, não te rirás, mas fico contente comigo, parece que ganhei o meu dia. A gente tem pieguices tambem, uma ou outra vez. Judith terá hoje uma bella ceia. Bem bom! Judith vae regalar-se por dois dias com as melhores rosas de Portugal. Até me ponho somitego, todas as rosas me parecem poucas para ella.—E pondo-lhe o ramo deante: vá, corta a tua rosa branca, a Judith é mesmo uma perdição que tem pelas brancas. Eu até faço experiencias. Quando ella fica uns dias sem rosas, appareço-lhe com uma no casaco, casualidade, assim como não tendo feito reparo. Nos primeiros momentos desvia os olhos, conversamos, vou-me demorando, porque assim, porque assado, e vejo-a erguel-os de repente sobre a flôr, scintillantes de gula; ora experimenta um dia! A palestra vae sobre mil coisas pueris, e ella agitada já, a não estar dois segundos no mesmo ponto, a piscar as palpebras com os primeiros symptomas d’uma fascinação quasi toxica. Quer então abalar desgostada, sabendo que estou alli para a vêr debater-se nos seus nervos, mas a rosa é mais forte que ella, muito mais, muito mais. E vem tocal-a com piparotes amaveis, vae, vem, anda á roda de mim borboleteando, a fingir que está bem, e a rosa lhe não deu mau olhado. Repara-lhe nos olhos, de coisas medonhas que dizem, voracidades, furias, todos irritados de fluido, lampejantes, dando punhaladas na flôr! Mas a rosa vence-a, pobre Judith, vence-a de todo, e vem tirar-m’a da casa subtilmente, põe-se a cortar-lhe as petalas ás dentadinhas: está prompta! Depois o paladar mais scientifico, um sentimento da equivalencia sensorial nos varios sentidos... Dás-lhe uma rosa ás escuras, ella mastiga-a, e diz-te logo a côr que era, o grupo que a flôr marcava n’alguma grande familia, tudo. Mas morre, verás, aquillo morre. Fortunas minhas! Nem de rosas se póde viver, que eu saiba.

Enfim, disse elle estendendo o ramo para Arthur, tira lá uma, tira.

—Não, fez o esculptor bruscamente.

—És tolo, gritou Albano, corta essa tal rosa branca, vão muitas aqui para a ceia d’ella.

—Palavra que não quero, insistiu Arthur. Era graça, gosto lá de flôres!

Albano teve um riso nos cantos da bocca, disse bem bom! bem bom! no entono de quem fica rosnando, e foram subindo a Alegria caminho de casa.

O esculptor marchava distrahido, um pouco atraz do companheiro, mãos nos bolsos, cachimbo apagado, absorto n’aquella doentia singularidade de Judith comer rosas, tão extraordinaria, ligeira, graciosa e poetica, que dirieis um episodio de lenda mystica, pintado por algum veneziano da edade gothica, em fundo de oiro byzantino.