Pela mente do artista alava-se essa vaporosa e singular creança, como o colibri mais ligeiro e a borboleta mais velludosa, na metamorphose do insecto que espaneja pedrarias das azas, e no perfume dos calices orvalha a bocca em sede.

Sob a algidez d’um raio de lua, vel-a-hia volitar de cabellos esmanchados pelos rosaes do paraiso, entre flocos de neve, levada no rythmo das walsas do Freyschutz, toda pallida n’um sudario luminoso, e com a belleza morta d’essa Mathilde que o Dante evoca trazendo flôres no regaço, dolorosa e vaga, nos tercetos do Purgatorio. Adejaria entre rosas, pousando os labios na viva caricia d’esses corações vegetaes, toda banhada n’um rosicler de pureza infinita. E a cada passo, bemfazejas e candidas, ondulariam flôres em saudações amorosas, supplicando a esmola d’ella as colher na passagem.

Junquilhos haviam talvez bordar-lhe grinaldas de noivado, na fimbria austera da tunica; lilazes e jasmins de neve viriam pelos seus cabellos rolar, na audacia de lhe sorverem os celestes perfumes; lirios brancos e palmas lhe brotariam do peito immaculado; humildes floritas viriam adoral-a á flôr das relvas, para morrer sob os seus pés, depois de lhe haverem beijado as frias mãos d’estatuela, admiraveis e brancas.

E esquecendo as mais flôres, sempre preferindo as rosas, indo por entre ellas n’uma via lactea de perfumes, e colhendo-as com dolencias musicas de gestos, para encher regaçadas, coroar a fronte, ou debical-as uma a uma, com a sua graça d’insecto, Judith iria atravez os interminaveis jardins da bemaventurança, serenamente, ligeiramente, transfigurada n’uma expressão divina de repouso, plastica e impalpavel a um tempo, no manso vôo espiritualisado e extatico d’uma Assumpção do Veronezo, sempre, sempre...

Entanto chegavam á porta do Albano, que disse ao esculptor para subir. Mas passava de nove horas, Arthur vinha um pouco fatigado, e separaram-se. Seguia o esculptor caminho de casa n’uma prostração doentia, cabisbaixo e lento, quando ao voltar da rua esbarrondou com um par amoroso, que ao rez das paredes, buscando o auxilio immoral das sombras, velejava cochichando no melhor aconchego.

Casualmente Arthur voltara-se, e pôde vêr uma grande dona de saias bufantes, em passo de carga, dando o braço a um louva-a-Deus de grenha espessa.

—Eh Flores! fez elle sobre o par que se ia escamugindo já por uma travessinha mais aphrodisiaca. Eh Flores!—E como o par fazia não ouvir, e Arthur necessitava de fallar ao ártista, foi-lhe na esteira com grandes brados—Eh Flores! Eh Flores!

Monteado por tão insolita maneira o jacobino fez alto, poz a dona n’um recanto, e veio parlamentar com o perseguidor, bastante mal humorado.

—Diabo, diabo! Que systema pessimo rebater as asserções d’um homem que vae espairecendo com sua dama um bocado. Que me quer vossê a estas horas?