—Olha cá, para que vieste só, a esta hora? Diz, anda.
—Estava a dormir. E vai, fez-se tarde.
—Sabes, moça? Se encontrasse ahi algum, não o deixava comer mais pão. Não me salve!
—Não ha medo, homem. É procurar!
Á medida que através as interpellações bruscas do Pedro, ella lhe sondava os receios, adivinhando o culto em que era tida, ia recuperando socego. Sentindo-o vencido então, a deixar vêr nas ameaças surdas o receio que o esmagava, era Rosaria quem fallava alto agora, pujante da sua felicidade e orgulhosa de dominar. Assim estiveram encostados no boccal da fonte, immoveis, olhando sem scintillas um para o outro, como se já tivessem dormido. Em roda, as ovelhas ajoujavam-se aqui e além, fartas do repasto da noite e cansadas de cabriolar nas encostas. Vigilantes, nos longes do arraial, os dois rafeiros iam e vinham, encalmados e tropegos, fazendo tilintar enormes colleiras erriçadas de gumes, e farejando os mattos, de orelha fita, á procura.
—Já fallei c’o teu pai outra vez, disse o Pedro.
—O anno vai mau, aventurou a rapariga, sabendo o que elle ia dizer.
—E a gente fica assim toda a vida?
—Ai, não! Mas quem faz casa, necessita que lhe metter dentro. Tu bem sabes, Pedro. Inda que uma creatura, sim, seja pobre, ninguem casa sem arranjos. Cá da minha banda, pouco falta.