—Mas que vem a ser isto? dizia elle alvoroçado. Melhorou tanto!—E abraçava todo feliz o companheiro. Albano poz n’elle os olhos mortos, não fez senão dizer bem bom! umas poucas de vezes, e viram-se-lhe as lagrimas correndo a quatro e quatro.
—Estás agora piegas, tornou o esculptor cuidando que eram d’alegria. E desceram. Judith tinha querido vestir-se, mas fallava com os dentes cerrados e muito pouco, riso immovel, rolando os olhos n’um vagar quasi dramatico. Albano achou-lhe o pulso regularissimo; conservava-o entre os dedos contando, trinta e uma, trinta e duas, trinta e tres... Subitamente o grande silencio d’um relogio que pára. Judith sorria para todos. Como o irmão estava á cabeceira do leito, teve de virar a cabeça um quasi nada, e ainda o viu todo tremulo, encostado á parede. Mas o pulso recomeçára, trinta e quatro, trinta e cinco... E tão contente, a pobre velha mamã! Fôra Nossa Senhora da Penha, e mais o santo tal, e uma grande esmola que ella tinha deitado ás almas de S. Domingos. Quando estiveres melhor, querida filhinha, iremos aos Fonsecas n’um dia assim como este, em carruagem fechada.—Ia dizer surrateiramente ao ouvido de Albano, no vão da janella: parece-me que ella tem as pontas dos dedinhos frias. Se fechassemos as vidraças? Vae tu vêr.—E para Judith, carinhosamente: muda-se de vida, mal te ponhas boa, deixa isso cá por minha conta. Esse habito de não comeres ás horas, não dormires com medo de tudo, e nunca dares um passo fóra de casa, não póde ser salutar a ninguem, o doutor m’o disse: muito menos a ti que és tão debil, querida filhinha. Bem t’o recommendava eu; nunca querias attender, cabecita ôca!—Mil planos então successivamente, se retalhavam e abatiam na loquela feliz da pobre velhota, mudarem de casa, mandar fazer uma grande pelliça a Judith para o inverno proximo, e noites de theatro, e passeios, e tudo. Sorriam todos, Albano por comprazer dos mais, ceu e terra deslumbrados na fulva magnificencia do astro. Aos platanos d’Arthur, tinham subitamente voltado passaros chilreando n’esse ephemero bom tempo; repicavam sinos por todos os campanarios da cidade; salvas no largo azul-myosothis do rio, predios que embandeiravam içando pau de fileira, musicas dispersas de regimento, uma doce alegria de pombas voando de caramanchel em caramanchel e beira em beira. Vendo Judith tranquillamente na velha marqueza, mirando as suas mãos exangues, um pouco cheia de cara, e como preludiando convalescença proxima, Arthur mesmo sentia-se reconfortado, após tanta noite de maceração e vigilia. E dizendo que já vinha, foi a casa vêr se descançava um pouco. A mudez que Judith conservára, tinha-se rompido áquellas palavras. E dissera:
—Não se demore, n’uma voz que impressionou profundamente o esculptor, timbres de cabra, como se a emitisse o phonographo, e tão espaçada que dir-se-hia não lhe irem occorrendo logo as palavras.
—Ha-de ser fraqueza, disse Arthur, querendo por força que ella estivesse melhor.
Pela tarde, mais de quatro horas, estava elle no atelier, á espera que amigo Flores chegasse de casa do Albano, onde o mandára saber de Judith, quando o ártista appareceu.
—Então como está? disse o pobre rapaz muito pallido.
Amigo Flores sacudiu a juba onde fios brancos corriam, e respondeu:
—Já boa. Escusado ter lá ido. E a escada que é alta!...
O outro não entendeu, repetiu-lhe:
—Hein? Melhor?