A voz de Judith baixava sempre, baixava, cahia o pulso, a tosse era mal um suspiro.

—Por estes dias... dissera o velho pratico, e Albano tinha entrado a rir lugubremente.

—Ora adeus! Póde lá ser! Por estes dias!

Estava essa vez a manhã mais deliciosa, picada de friositos confortantes, nem a primeira nuvem, toda a cidade fumava, e flechas de sol embutiam jerogliphos n’um vehemente ceu d’Andaluzia, e grande rumor de pregões, como houvera peixe...

Não, elles não consentiriam que a sua pobre amiguinha fosse para os covões da fria terra molhada, dura, surda, que rangia as mandibulas na escuridão, e se enroscava corroendo tudo, apodrecendo tudo, substituindo tudo, e d’envolta remexendo no mesmo cadinho d’alchimia torva, velhos ninhos e cadaveres, cabellos loiros e folhas seccas, ultimos risos e virginaes capellas.

Buscavam excitar-se, reanimar reciprocamente as masculas energias decahidas, com dizeres de que não criam uma só palavra. Ante a impotencia nos meios de reagir, vinham-lhes cobardias, transigencias graduaes em materia de fé, vacillações atrozes. Deus atravessava ás vezes essas cabeças desnorteadas, n’um fundo de nevoa sebastianica, carrancudo, com o sarcasmo feroz d’um tyranno que se vinga de o não terem acreditado em começo.

Elles n’uma vil duvida, tendo nos ouvidos a prophecia do clinico, por estes dias, por estes dias, por estes dias! contavam as horas que só restavam talvez, perguntando quando seria, appellando para alguem que tudo podesse, fosse quem fosse, Deus ou o demonio. E renegavam dos seus grandes principios d’outr’ora, hesitantes, será, não será? entreolhando-se n’uma d’essas angustias verdenegras, cobardes, mesquinhas, despreziveis, inevitaveis, humanas, que são a bilis do coração, profundamente amargas. Quando foi meio dia, por uma temperatura a mais amoravel, com abelhas zumbindo nas escapadas de sol, borboletas que arfavam, carruagens descendo dos bairros aristocraticos para a cidade commercial, raparigas que punham os ultimos pompadours claros, todo o mundo que se desentorpecia passeando, respirando, cantando, pareceu Judith sensivelmente melhor. Os seus olhos fizeram-se docemente humidos, sem esbrazeamentos de febre; nem uma suffocação de tosse; a voz mesmo subiu um pouco; e coisa que não fôra vista em toda aquella semana, teve um riso quasi feliz. Vinha o sol alegremente pela alcova, festival e fulvo; ella mirava as suas mãos diaphanas com enlevos de baby. Albano deu-lhe a colher de Madeira, uma grande pilula de carne, e tintas menos baças pareceram reflorir-lhe por transparencia na pelle. Aquillo deu vislumbres de esperança ao esculptor, que lhe poz junto dos labios, muito jovial, uma bella rosa branca, por milagre obtida já n’aquelle tempo, ultima talvez do anno. Porque nunca se veio a saber como o pobre rapaz tinha artes de arranjar o seu pequeno ramo todas as manhãs.

Passava de seis dias que Judith parecia haver esquecido as flôres, de entorpecida na mollidão da febre, por fórma que havia rosas por toda a parte, nos grandes jarrões do aparador, vergando por cachos no centro de mesa, ou murchas em cabazinhos por todos os cantos. Erravam assim no ambito perfumes fanados de egreja, recolhimentos de penitencia, e halitos tepidos d’oração.

Arthur veio encontrar Albano, que subira ao sotão para trazer a rabeca.