Os seus olhos tornavam-se enormes, inquietos, quasi ardentes, perscrutando as faces e gestos de todos. Recrudesciam-lhe cuidados pelos outros, a mamã que não comia, Albano que não socegava de noite, o Arthur sempre concentrado; depois eram as gavetas todas desarrumadas talvez, roupa que se ia accumulando de semanas, e ella a não poder costurar, Jesus! o irmão com falta de camizas engommadas. Mas ia levantar-se, andar, ter forças um d’estes dias, não era verdade? Já não deixava a cama, e nem suster podia a pobre cabecita de passaro. Voltavam-lhe fervores de monja por toda a côrte dos ceus, paixões da musica séria, grave, triste, que permuta confidencias de sêr para sêr, e em cuja secreta essencia a alma se banha, para despertar em mundos translucidos de reminiscencias divinas e indefinidas imagens, resolver a dôr pelas lagrimas, e impôr os grandes sacrificios na vida, sem rebellião nem blasphemia. N’este irresoluto spasmo de espirito bruxoleante, ella ia d’um a outro bocado sem coherencia nem logica, querendo apenas pela vibração, traduzido o estranho cosmos interior, que instantaneamente lhe chegava e instantaneamente partia. Embalde o estudante lhe evitava os dolorosos, os convulsivos, os doentios, os sem esperança—Chopin que parece ter escripto sob o inferno d’uma chaga por todo o corpo, excruciado em torturas freneticas; Massenet o poeta das emoções indefiniveis; Beethoven mysterioso como o mar, terrivel e dôce como elle; e os outros, Gounod, Berlioz, Widor, Schumann... Mas eram esses que ella pedia a toda a hora, estendida no seu leito de cassas immaculadas, entre rosas que esfolhavam meio comidas por esses vagarosos dentinhos, mãos em cruz como certas estatuas de mausoleu, o espirito errante. Ao anoitecer punham a lamparina longe, a um canto da alcova, uma penumbra morna ondulava tufando impalpaveis fórmas de mil coisas evocadas; e era quando Judith gostava mais de ouvir o irmão.

Na dubia e calma atmosphera, a musica equiparava todos esses organismos, polarisando-lhes a emoção n’uma mesma corrente de gostos e affinidade de devaneios. Aos gestos d’esse arco requintado, debandavam os allegros como pombas que vindo beber n’uma urna tumular de creança, partissem levando no bico ultimas lagrimas de mãe n’ella choradas. Esboçavam os scherzos fugacidades de cherubins em marcha do ceu á terra, n’uma grande espira biblica, com stalactites d’iris e revoadas d’espiritos santos, entre os threnos das cytharas e chuveiros de rosas mysticas. Por intervallos, suspensões faziam a alma indecisa recuar, reflectir, sacudir as plumas, tomar folego. E em meio da longinqua harmonia quebradiça, serena, carinhosa, supplicante, retinia subitamente um grito. Então os prestos desemboscavam-se, sahiam d’agua para algum sabbat n’uma flecha de lua, faziam-se e desfaziam-se, perseguindo-se, beijando-se, voando em pares por baixo das folhagens multiplas de arecas e nogaes perfumosos, vergando aos circulos como nos corpos de baile, pousando em grupos dissolventes, balanceando-se em grinaldas de flôres por cima dos murmurios da agua, ou ficando a rezar o motivo baixinho.

—Meu Deus, Judith, tu dormes, minha filha?

—Não, mamã, estava a pensar, vês tu, que é tão bom viver!

Albano nada dizia com medo de se ouvir; Arthur tinha receios de perguntar. Depois, era evidente. Começava a romagem dos tisicos n’essas frias manhãs côr de teia d’aranha e folhas mortas, em que a cidade vae pagando ao cemiterio o seu tributo de cem virgens. Na face de Judith, dos malares ao queixo, um claro-escuro projectado na pallidez fazia-lhe a masque rigida e severa.

Para mais, tudo acabrunhava o pesadêlo funebre; dir-se-hia ganharem as coisas de roda, physionomias crueis e implacaveis caracteres. Qualquer agouro caseiro de que Albano sempre se rira, deixava-o pensativo ás vezes, realisado agora. Alta noite, a calada do predio apavorava pela glacial enormidade, fazendo um enorme rir de caraça, baixo, vazio, sardonico; a pendula da casa de jantar irritava-lhe os nervos; lentos chuveiros iam rolando na terra negra, como prantos por vestidos de lucto; e nos descampados da Avenida, os uivos lamentosos dos cães noctambulos, pediam á cidade arquejante no seu somno de vicio, como pobres jaus, esmolas de corpos para matar a fome aos cemiterios. Aggressões em tudo. Se Judith passava pelo somno, os relogios davam horas muito alto, para ella despertar. Estalava o sobrado, quando punham mil precauções em pisal-o. Repetidas soirées com piano e canto até de manhã, na visinhança; gatos cabriolando n’um esbanjamento de prazer, por essas casas; e a mamã apavorada, bradando no meio d’um sonho tenebroso—Jesus, minha filha morreu!

Por vezes tudo parecia um pesadêlo transitorio. Ella podia lá morrer! Morre-se lá com dezeseis annos! A natureza tem necessidade de corrigir por estes modêlos de innocencia e intangivel doçura como Judith, maus rebentos que produz e cadeias de monstros que deixa propagar, sem piedade nem consciencia. E argumentos dos livros. Os organismos novos arrancam dos proprios seios extraordinarias forças de reacção, com que se defendem dos males que os assaltam, até os deixar varados no campo.

Coisa alguma nasce sem um destino e um fim, Arthur, pois não é verdade? Vem ao mundo a mulher para mãe. Logo, Judith não podia morrer ainda. De repente cahiam em si desconhecendo-se, a si mesmos perguntando desde que tempo podera amassar-se-lhes dentro tanta fragilidade, tanta estupidez incoherente, tanta miseria. Cada um d’elles a occultas do outro, punha a sorte de Judith em loteria.

—Se emquanto fôr por esta rua, nenhum cão ladrar, ella melhorará, dizia Arthur apressando o passo, n’um terror de ouvir signal desfavoravel. E se effectivamente ladravam, enraivecido, fazendo um gesto violento:

—Não vale! Não vale! dizia elle transtornado.