N’esse calvo gasto de toda a emoção, envelhecido antes de feito, com postiças indifferenças pela familia, cynismos de philosopho e superioridades de sabio, via Arthur surdamente ir-se mostrando a alma mais affectuosa, á medida que Judith desfallecia. Elle que até alli tratára a irmã como uma cadellinha de collo, correndo uma vez por outra a sua velha mão pelos cabellos d’ella, com benevolencias de pedagogo e sobrancerias de senhor, descia agora do seu sotão de anachoreta nos entre-actos dos livros, com a rabeca debaixo do braço, calva pensativa, e os myopes olhos perscrutando atraz dos oculos fixos. E alli sentado aos pés d’ella com um ar de artificial expansão, tocava-lhe os bocados de que Judith mais gostava, Schubert, Massenet ou Haydn, em cuja musica ha tremulinas de lua no azul dithyrambico dos lagos, por onde arfa a neve dos cysnes, em tapeçarias de nenuphares. A Célèbre Rêverie fazia-a chorar, assim como uma queixa de creança abandonada, por um caminho que mergulha nos bosques, sinuoso, e se perde em subsolos de floresta—e a voz esmorecendo a distancia, na noite, no desamparo, na fome... A espaços, inda ella chora na aura que faz ondular a herva dos descampados. É um dulcissimo e vago suspiro, uma supplica de alguem que embalde esmola por esses montes á chuva, á procura de cabana onde passar a noite, d’um ninho de ave onde dormir, da saccola do velho mendigo ao menos, para repousar a cabeça...

E a meio da clareira onde a chuva bate, lá longe, reunindo forças que a desamparam, inda o anjinho implora, e chama, e soluça. O vento leva o rumor d’essa voz que esvaece, repetindo manso, de mansinho, a supplica, tresvairada pela febre na oração!

—Oh cala-te! fazes-me mal! dizia ella detendo-lhe o arco inspirado. E em redor todos calados, deixavam errar a imaginação nas brumas pallidas do sonho, soffrendo em commum d’esses presentimentos cujo phantastico é rhembrantesco, como nas noites de Walpurgis. Albano para distrahil-a tocava-lhe então coisas vivas e alegres, walsas, coplas, bailados meyerbeereanos—o dos patinadores, no Propheta, onde os grupos vão por turbilhões n’um impeto de vida brutal, sob a neve, á luz dos fachos; a bacchanal do Roberto que uma lascivia quente penetra, entre murmurios de beijos e o espumar das taças; e essa deliciosa walsa das wilis do Hamlet, quando Ophelia vem louca, coroada de flôres e vestida de branco, musica tão volatil, tão sentida e tão doce, que a orchestra entrecorta de rumores de agua e echos fluctuantes da campina.

Judith conhecia a sorte das mulheres n’essas operas celebres; quasi todas morriam de amor, abandonadas, violadas, incomprehendidas. E por alegre que fosse o trecho tocado, na sua mente os vultos lendarios corriam de mãos em cruz e olhos vazios, evaporados do marmore romantico das sepulturas. Por outro lado, ella não podia passar sem ouvir o irmão, por uma hora ou duas. Distrahia-se ao menos assim, era como se fosse uma soirée. E deitada na marqueza com a nuca sobre as mãos, um papa abafando-lhe os pés, ficava assim muito tempo, muda, com o espirito longe, e immovel como adormecida. Para a contentar, Albano revolvia o reportorio classico, gavotes de Lurli, poemas ingenuos de Gery, certas sonatas faceis de Beethoven, o Mendelssohn menos complicado, e esse menuete de Boccherini d’uma tessitura galanteadora e aerea, que diz a vida de salão no seculo dezoito, e ella nunca se cançava de ouvir. A musica amansava ao mesmo tempo o esculptor, regularisando-lhe as descargas dos nervos, mostrando-lhe os lados dôces e feminis da vida, dando o poema de cada impressão, de cada côr e cada sêr, sagrando tudo, as arvores antigas como deuses e altas como monumentos, as paixões nobres do homem, todos os infinitamente pequenos do amor e da bondade universal. E Judith sempre mais fraca que no dia anterior, com a exquisita melancolia virginal dos anjos doentes, olhos cheios de ceu, e a graça hysterica de um sangue pobre. Uma manhã não pôde erguer-se. Albano vestiu-a, tomou-a no collo como uma creança, e dôcemente veio sentar-se com ella ao pé da vidraça. Piscava os olhos vermelhos, tufados, com um tic nervoso de palpebras, careca desolada, fingindo humor feliz, como se nada em casa houvesse de inspirar cuidados; e dizia muitas vezes—Bem bom! Bem bom! Mas a sua voz tremia com um degelo de lagrimas na guela; e deitada no hombro d’elle, Judith fitava-o com esses olhos inquisidores na fixidez d’uma ideia negra, constellados, profundos e crueis, de enferma que vem de lêr uma sentença na face do medico. O tempo arrefecia, iam nos ceus galopadas de nuvens, grandes chuveiros nos longes, dias pardos, as primeiras severidades luctuosas do outono.

Vortilhões de nevoa afogavam de manhã toda a paizagem de construcções esboçadas e bairros por terra, como esfumaçando dos tectos n’algum vasto incendio de cidadella. Essa fumarada crayonava nos seus ventres de monstro, escadas de Rembrandt d’uma profundeza insondavel, boqueirões que mastigavam com as suas maxillas tenebrosas, flammejantes linguas que vinham sobre os tectos lamber alguma presa estranha, membros destroncados que rolavam em explosões de minas pre-historicas.—E confundindo os cimos na formidavel confusão da abobada, iam-se franjando em rendas de tom alvacento, insculpiam trevos de ogiva barbara, columnellos, e escadarias com grandes mendigos encapuchados na sombra. A espaços, algum feixe de sol amarellentava essa betuminosa e lugubre architectura, campindo fundos d’apotheose murillana, nos truculentos ceus, onde o azul raro abria a sua elysea flôr de colorido.

No quintal de Arthur, os platanos choravam dos ramos, folhas doentias, na aggressão do vento—e desnudando os troncos dolorosos, dir-se-hiam esqueletos despegando dos membros farrapos de sudario ou de pelle. Uma regressão de seivas ia por jardins e alamedas, na melancolia torporosa dos primeiros frios. E ella ia-se devagarinho, quasi sem febre, o menor escarro de sangue, resvalando serenamente pelo mal como por um tapete de flôres. Apenas uma pequena tosse secca a fatigava muito, cavando-lhe as feições a duras enxadadas. Arthur vinha sempre, tendo agora com ella liberdades de irmão e velho amigo. Fallavam pouco.

Ella cansava, a voz ia-se-lhe sumindo como um fio de agua, nas profundezas do peito. E de mãos dadas olhavam-se os dois, n’uma quietação, como babies. Ás vezes, raras, ella sorria, os seus olhos ganhavam lucidez como condensando a vida toda d’esse corpo franzino, e ficavam assim. Viera a maldita insomnia, uma inquietação, zumbidos. E as noites eternas torturavam-na, sem uns pobres minutos ao menos, de repouso.

Albano e o esculptor repartiram então entre si o tempo de vela, porque a pobre mamã velha e doente, não tinha mais forças para noites perdidas. Atrozes, essas noites sem conto, gastas a procurar posição de repouso, e successivamente alagadas em suores debilitantes. Raras vezes a tosse lhe permittia dormitar momentos, voltava-se para um lado e para outro, pedia rumas de travesseiros para logo os repellir com fadiga—e uma oppressão no peito, um ralo interior, um dolorir de membros, que lhe faziam insupportaveis certas horas. Pela madrugada, em o ar indo a regelar, a tossinha redobrava, teimava, insistia por horas, horas, horas, até dar com ella para a banda sem accordo, asphyxiada e rôxa. Então sobrevinham terrores, desvairamentos, hesitações. Jesus, se estaria morta! E no silencio da casa, elles olhavam-se com desesperos mudos. Albano applicava sinapismos, punha-lhe aos labios aguas aromaticas com ether, auscultava-a por todos os lados, ou ia-lhe procurando as pulsações com os olhos sobre o relogio de segundos. Ainda não! Ella respira. E sorviam o ar com ruidos freneticos. Arthur ia logo accender sua lampada d’alcool para amornar um caldo. Ao largo a manhã bocejava n’um tedio nevoento e frigido; ruidos de carroças sacudindo ferragens, operarios que partiam, mugidos de vaccas e pregões vagos, punham em volta da pobre gente afflicta, vidas áparte, egoistas, explorando-se com raivas subterraneas, sem fazerem reparo n’aquella agonia de terceiro andar. Ao meio dia, em tempo de sol, se acaso a sentiam mais reanimada, e tinha mastigado o beef ou tomára bem a colher de Madeira, a mamã vestia-a com grandes precauções de flanellas, enrolavam-na em chailes para a sentar ao pé da janella, n’uma velha poltrona em coiro verde, da casa de jantar. Albano e Arthur disputavam-se o encargo de lhe pegarem ao collo, da alcova para a janella, da janella para a alcova, o que fazia sorrir a boquinha desbotada de Judith. Tomando-a nos braços, cada um d’elles nunca deixava de a sentir mais leve que no dia anterior, por mais que fizesse por se illudir. Albano trouxera um clinico celebre da Escóla, que por amor do estudante todos os dias vinha com o seu bom riso d’esperança, resuscitar a enferma, que aljofrava no riso pallido a mais admiravel resignação. Se alguma coisa parecia dar-lhe pena, era que se affligissem tanto por ella. Agradecia em effusões excessivas o menor serviço que lhe rendiam, tudo achando bom, e sempre a dizer que não precisava de coisa alguma. Pequenas vaidades comtudo, ainda vinham como ephemeras margaritas, á flôr d’essa existencia de sylpho que se evaporava, gotta agora, gotta logo, imperceptivelmente, como um perfume raro. Sempre fôra um dos requintes penetrantes da sua preoccupação feminina, ter mãos de rainha ou de santa, com unhas esmaltadas de opala. E mirando agora a transparencia dos seus dedinhos mirrados, com vagos tons d’azul na raiz das unhas, o momo do labio maguava-se todo. Espiralitas rebeldes soltas da coifa, vinham de manhã nimbar-lhe em oiro o marfim da testa. E torcendo-as contra a luz, ella deixava vêr lenitivos de momento, e como um secreto orgulho na face murcha de soffrer. Mas cada vez perdia mais o gosto das côres claras, branco, côr de rosa, violeta pallido, fazendo na escolha dos vestidos severidades de viuva e de velha. A vista d’um chapeu, d’uma visite, qualquer vestuario de sahir, atravessavam-na de melancolias lividas—começava talvez dentro d’ella a horrivel saudade da vida alegre, luminosa, cheia de replicas e luvas frescas, das raparigas sadias e casadoiras, receios indefinidos de nunca mais vir á janella por seu pé, e essa nostalgia insondavel dos que vão morrer na flôr dos annos, nostalgia das velhas affeições queridas, do bom sol de inverno, das grandes arvores seculares, da mocidade dos outros, do amor, das aguas que se espelham, gorgeios de creanças, e da terra inteira e vigorosa—que embrutece a dôr, e Deus sabe se vae impulsionar com desesperos sinistros a chimica tragica das sepulturas. Por ventura a ideia de morrer lhe tinha acudido n’aquellas desfallencias de noites brancas, em que esphacelada de tosse, ella mesma se illudia, assim imaginando afugentar a morte. Tanto que dizia sempre estar melhor, fallava em residir uns dias na quinta dos Fonsecas, em mudando o tempo. Só d’uma vez, contando-lhe Arthur como se desempenhára das missas na capella defronte, por intenção d’ella, como estivesse esse dia peior, lhe ouviram ambiguamente dizer com uma voz abafada e tremula:

—Tem de ser, paciencia!