—Posso saber, disse elle, por quem faz esses sacrificios?

—Nada, respondeu ella baixando a vista. Vae sendo velhinha a mamã, e depois Albano não vive senão com livros. Para lhes tratar da roupa com amor é preciso ser da familia. Uma estranha não quer senão que lhe paguem. Quem havia cuidar d’elles se eu morresse!

Aquella infantil preoccupação fez pena a Arthur, que lhe beijou respeitosamente as mãos, pela primeira vez.

—Gosta de mim? disse ella olhando-o de face com grandes olhos ingenuos, em quanto lhe prendia na casa uma d’aquellas rosas brancas do ramo.

—Mas muito, juro, muito!

—E foi por minha causa que mandou vir as roseiras?

—Não, não, palavra.

—Shut! foi tal. Albano deu a entender. Eu mesma adivinharia. Hemos sempre ser amigos, quer? Se Nossa Senhora fosse servida dar-me saude, quem sabe ainda... Mas sinto-me tão fraca, e o tempo muda, depois...

Fez com o polegar na ponta do queixo, o gesto d’uma coisa que se aniquila. E chorava. Foi como Arthur a viu em sonhos d’alli por deante. Todas as manhãs lhe mandava rosas em grandes corbeilles. Mas nunca mais aquella visão de flôr, que emmurchece e pende, se lhe apagou do espirito.

Por esse tempo de feito, Judith adoeceu. Havia uns mezes que ella andava pallida, com o bistre das olheiras mais fundo e mais largo, recolhimentos religiosos, certos langores de cabeça, uma tristeza nos dias de frio. Á noite, Arthur vinha lêr alguma coisa, fallar do que corria, e saber como estavam. Via-lhe sempre um riso de esmalte amoravel, os cabellos enrolando muito baixos, no occiput, em duas rosaceas de oiro baço, um bocado de pescoço flaccido, e essa pallidez de mãos, cerosa e diaphana, que põe em cuidados os medicos. Como symptoma inquietante, nada. Nem dôr, nem prurido, nem ardencias de febre. Uma fraqueza crescente, um emmagrecimento sem causa, fastios, e em certos dias, cansaço. Consultado pelo artista, Albano ficou calado—e pela primeira vez não rematou com o bem bom! do estribilho.