Os dentes do velho rangeram. Chorava, ria, esse homem, cobrindo o peito de baba; era assombroso de vexame! Luiza conseguira libertar uma das mãos; e pregou-lhe nas ventas uma bofetada medonha. Áquella affronta, Ezequiel perdeu a cabeça. As obscenidades golfaram-lhe da bocca, como granizos espessos, pintando toda a decrepita infamia da sua alma. Ella estava de pé junto da porta, quasi núa, sem se importar. Tinha no collo e nas orelhas as joias que lhe mandara o marquez. O velho viu-as.

—Eh! Eh! Sempre aceitaste o cofre de meu amo. Já lhe posso ir contar que o mais difficil trabalho está vencido. É melhor ser amásia de fidalgo que mulher de creado de servir. Inda tu procedeste com brio. Ha marafonas honradas! Podias ter escolhido as duas profissões ao mesmo tempo. Ella ria-lhe na cara. E o miseravel, volvida a crise, apresentou-lhe as ultimas concessões. Ajoelhára. E jurou-lhe consentiria o adulterio. Dava-lhe as suas riquezas por uma noite só d'intimidade. Casada com elle—ao dia seguinte, podia partir com dinheiro dos seus cincoenta annos d'escravidões e economias.

Luiza não retrucou: agarrára um papel de cima da cama.

Deliciosa aranha delicada...

Mas casualmente, erguendo os olhos, viu na bandeira da porta tres cabeças gravemente assestadas á vidraça, gozando a comedia com a paz d'alma de bons espectadores das galerias. Marquez das Flôres tinha um grande binoculo com que a mirava. O poeta estava em extasi. Do festejado Mattos mal se via a careca luzente, como era mais pequeno, e uma ponta do nariz guloso que vinha adejar contra os vidros, como um focinho de morcego encandeado contra a luz d'uma fogueira.

Perto da quinta, sobre um outeiro coberto de cevada verde, do outro lado da aldeia, houvera de tarde uma festarola d'ermida. Todas as creadas tiveram licença para ir até lá, depois do jantar, excepto Luiza que estava de serviço á marqueza, e Ezequiel que, já velho, quizera ficar junto de seu amo. Dos terrados do palacio via-se, já noite, a foguetaria estrondeando no adro, e clarões de fogueiras lambendo as saias das moças na sarabanda dos bailaricos. De quando em quando, uma labareda mais clara desenhava no azul profundo a branca fachada da igreja, d'onde sahia um campanario em agulha, cujas sinetas desde a manhã tagarellavam festivamente. Extinctos os rumores das officinas, no andar terreo, silenciosas as cocheiras e mais dependencias da casa, toda a enorme residencia dir-se-hia acachapada n'uma somnolencia lugubre, entre a confusão dos arvoredos. Apenas nos quartos da fidalga cochichavam tres ou quatro velhas damas das quintas perto, que tinham vindo de visita, aproveitando a aberta do dia santo; e na casa de jantar, logo depois do café, o jogo começára entre os convidados do marquez.

Sósinha no terraço, Luiza seguia a curva dos foguetes no céo primaveril, esmagada pela espantosa scena com Ezequiel. Queixar-se..., ella tinha pensado em queixar-se. Mas Ezequiel contaria a scena do afogador e das pulseiras, a sua loucura pelo Ruy, e todas as tagarellices que a pobre cahira em confiar-lhe. Á tardinha, vencida de remorsos, ainda ella ousára ir com o estojo ao marquez, a recusar-lhe nitidamente aquellas offerendas que não merecia. Elle olhou-a com a bondade um pouco ironica que costumava ter.

—Meu padrinho, eu vinha...

—Ah, não me agradeças, pequena. Sei da companhia que fazes á senhora. É uma lembrança de minha parte. Nas raparigas bonitas é que essas coisas dizem bem. Vai.

E Luiza não tivera coragem d'insistir.