—Casar, disse elle. É o que deves fazer. E o seu olhar evitava-a.

—Casar, ella! quem queria uma mulher sem fortuna, e com a educação mais alta que o nascimento? Os habitos que contrahira n'aquella casa prohibiam-lhe de se unir a um qualquer homem do campo que ella de resto não saberia amar sinceramente. Esses mesmos habitos haviam compromettido a serenidade da sua consciencia, e quem sabe se auctorisado os desbragados propositos dos que buscavam perdel-a? Mesmo, a sua razão tresvairava: era necessario um esforço desesperado para varrer da cabeça as loucuras que por lá corriam.

Loucuras, sim?

Ella não delirava. Casar com este ou com aquelle, tudo era cahir do sonho radioso a que se afizera primeiro. O homem que ella adorava, jámais poderia sem descer, tocar-lhe com os labios na testa. E o seu futuro, ella bem no via, descendo n'uma espiral d'angustias e desalentos. Em creancinha, quando o menino estava ausente, Luiza dir-se-hia no palacio a filha unica da marqueza, que todos acariciavam de passagem, buscando por ella captar a benevolencia da fidalga. A felicidade era tão facil d'aprender! Assim se fôra educando, como se a destinassem a algum homem de condição superior. Até a familiaridade de Ruy, n'aquelle tempo, lhe ajudára a fomentar a sua illusão de grandeza. Agora Ruy estava um homem—adeus encantamento! Luiza teria de voltar a ser uma guardadora de porcos.

Elle apadrinhou-a com um magnifico gesto fidalgo. Quasi nem metade das suas palavras ouvira, porque havia um instante, surpreso, se escutava, sentindo-se invadir d'um sentimento indefinivel, delicioso, inquietante, que lhe ascendia no sangue, e o esbraseava no mais recondito da sua carne, e lhe punha fervores pela nuca, até ás fontes, como se fôra um veneno. Aquillo espraiava-se n'elle em bruscas ondas: era uma sensação inexplicavel de vaga delicia, sobresalto, receio, queimadura... Já trinta vezes quizera afastar Luiza, sacudir os filtros que vinham da sua provocadora belleza, retomar o seu bello ar de principe herdeiro, impassivel aos arrulhos do serralho: e outras trinta sentira faltar-lhe a coragem. Entrou então a dizer-lhe consolações ao acaso. Ella estava por força na sentimentalidade ephemera d'um mau momento, vendo côr de cinza por uma ennublação instantanea da sua viveza de rapariga—nem admirava, com a doença da senhora marqueza... E senão, que queria dizer tudo o que lhe ouvira? Das suas palavras, não resahia uma só causa de soffrimento legitima. Era quasi tudo pesadello romantico, trahindo a crise dos nervos convulsivados, hemorrhagia sem lançada, preludio d'amor latente, que fluctuava ainda sem escolha d'idolo. No fundo d'essa avenida de projecções melancolicas, era evidente que a sombra d'um homem adejava, mas sem physionomia, sem cabeça... uma insurreição do feminino em cata de nupcias. As mulheres aos vinte annos vibravam todas n'aquella passageira crise do sexo reclamando o culto para que foi votado. O necessario agora era pôr uma cabeça sobre os hombros d'aquella translucida apparição, dar-lhe face, dar-lhe caracter, dar-lhe nome... Finalmente, tornar o phantasma em homem!—E sorrindo: hei de procurar-te um noivo, deixa estar.

Luiza erguera a cabeça.

—Tu?

Surprehendido, elle encarou-a. Viu-lhe o perfil dealbado por um lampejo da sulfatara interior, e a lascivia da bocca aspirando o halito das suas benignas palavras.

—O meu noivo, balbuciava ella n'uma especie de amoroso delirio, poetisado pelas cadencias da voz debordando em melodias. Procura-o perto. Talvez te não responda, apesar dos meus suspiros que o chamam, noite e dia. É uma estranha creatura, esse noivo, bella como a apparição do Christo a Santa Thereza, porém fria e fatal aos que se lhe approximam. Só prostrada na terra eu ouso chegar-me a elle, como um reptil a uma corça branca dos bosques. Entre nós, eu bem conheço, ha o boqueirão d'uns poucos de seculos de cultura. Quero preencher com a minha belleza esse formidavel precipicio que me prohibe de o adorar. Ai de mim! Embalde os meus braços tremulos se lhe estendem, e os meus olhos extaticos vão pousar-se, como pombas, no esplendor da sua belleza tão pura. Elle não quer ouvir os meus soluços, nem derramar nos meus cabellos a calorosa uncção das suas caricias. É nobre, é altivo. O seu destino o preserva das minhas traiçoeiras ciladas. Todas as aflicções da minha alma, todas as reluctancias da minha juventude, dias de esperança, noites de delirio, nostalgias a olhar do angulo d'um terraço o cotovello d'estrada por onde a sua carruagem se sumiu... tudo ahi fica murcho e desfeito no caminho dos seus passos, sem que elle volte a cabeça para me lêr no branco dos olhos a cruciantissima dôr que a sua pisadura fez verter. Annos e annos, esta cegueira luctou por captivar-lhe a misericordia, sem reparar nas concessões infamantes que a minha alma ia fazendo aos desejos que a torturavam. Quiz transfigurar primeiro o meu amor n'um celeste e casto poema, todo espiritual, todo intimo; subtilisal-o em dedicações, impôr-lhe sacrificios... devotar-me emfim á sua felicidade, calando o grito do meu coração que reclama sem partilha, essa creatura em que elle não póde pensar sem deslumbramentos. Protesto inutil! Filha de grosseiras gentes, puidas de miseria, e fazendo do vicio desforço para amordaçar o desespero, estava escripto que eu havia de andar a rojo, como a serpente, tentando a claridade immortal da sua adolescencia.

Luiza calou-se, arquejante. E os seus cabellos roçavam pela bocca de Ruy, mordicando-lhe a pelle do queixo com uma titilação imperceptivel.