—Emfim, a minha paixão chega a um limite e rebenta, prevendo o instante em que elle me vai fugir para não voltar. Oh não me abandones tu!

—Vem gente, tornava Ruy n'um sobresalto.

A mesma loucura os tomava e fazia pulsar estreitamente unidos, assim como n'uma bocca muda, um labio a outro labio.

—Não! É um minuto mais, dizia ella. Eu já não sei o que digo. A idéa de que outra mulher terá beijado a tua bocca tira-me o somno, e o meu sangue tumultua e allucina-se desde que perdi a esperança de te captivar a um simples fremito das minhas sobrancelhas. Eu não te peço um desses amorfos e dessorados amores que sob a umbella da igreja podem mostrar-se a toda gente, na atonia estupida em que a lei amosenda as fioriture do coração. Tornei-me um animal de luxo, não é assim? cuja posse disputam em tua casa esses homens. Então escolho-te! Estou no meu direito. E como uma escrava, estatelo-me no chão que tu pisas, para que me esmagues a cabeça depois de me haveres cingido, uma vez só que seja.

Ella cahira-lhe aos pés, e beijava-lh'os com a exaltação d'uma louca e os phrenesis d'uma enfeitiçada. N'aquele instante, Ruy nem sequer teve um gesto para apanhal-a do chão. Fizera-se muito pallido. Os seus braços tinham cahido. E um terrivel sorriso zigzagueava na sua bocca enygmatica. Dirieis uma creança, que chegada ao fim d'um bello conto, subito se desencanta do entrecho, e passa adiante, sem lhe ligar mais attenção. Assim elle entrou nos quartos da marqueza, bruscamente, deixando-a prostrada nos primeiros degraus da escadaria.

Por conseguinte, Ruy tinha-a recusado, depois de a ouvir monologar como uma actriz fastidiosa. Interdicta e buscando vencer o asco que de si mesma lhe vinha, Luiza escutava o furioso debater da sua vaidade sacudida na estriadura d'aquella humilhação. Sahiram as visitas, voltaram da festa os creados, que pouco a pouco, ceia finda, iam desertando para os seus dormitorios. Luiza trouxe o caldo á marqueza, vazou-lhe o calice de Madeira com a mesma solicitude machinal, sem ter reparado na escarradeira cheia de sangue, na somnolencia e na pallidez da pobre dama. Renovou o azeite da lampada do oratorio, desceu á cozinha onde sua irmã pela centesima vez insistia em lhe aconselhar o casamento com Ezequiel, como mastro de cocagne para a familia inteira: e de joelhos, na capella, para as rezas da noite, por mais que fizesse, o seu espirito perdia-se em oceanos de magua: até que afogueada, estupida de scismar no seu destino, veio ao terraço banhar a cabeça nas brisas da noite.

Os ultimos romeiros desciam do monte, e amadornavam por esses caminhos os echos das cantigas, deixando atraz de si n'uma espectativa lugubre, a somnolencia espectral dos arvoredos. Uma livida noite amortalhava o immenso descampado. Entre cerraceiros de nevoa, a lua minguante subia por ondas de claridade torva, gordurenta, sem reflexos, como uma agua-forte sinistra que rolasse as suas tragedias de cinzento, desfazendo nos macissos as ultimas nuances de paisagem. Ai, pobre Luiza! Aquella repulsa fazia-a rolar na sua idéa a uma condição, além de cuja ignominia ella julgava se não podia descer mais. Quanto daria ella agora, a pobre tonta, por voltar a ser na estima d'elle a sua companheira de brinquedos, a sua pessoa de confiança, a sua amiga, a sua irmã?... e poder encaral-o com os olhos limpidos d'outr'ora, sem córar por aquella scena de seducção premeditada, que até na propria consciencia a envilecia! Agora ella olhava á roda de si cahida da exaltação que a levára a cingir-se com elle, interrogando-se, perscrutando-se, dizendo-se indigna de todas as commiserações. Era uma mulher sem vergonha, quasi ignobil, que inspirára o nojo, mesmo formosa, mesmo intacta, ao primeiro homem a quem estendera as pomas dos seus desejos. Podia aceitar quaesquer das infamantes soluções que lhe propunham: ser a amante do creado, ou ir saciar o deleite ephemero d'um dia ao marquez e aos mais debochados do seu sequito. O seu desejo extincto, tudo o mais lhe era indifferente; e a morte começava d'ali por diante, com a frialdade do seu coração prohibido de bater por alguem. Mesmo, não via outro destino além de prostituir-se ou matar-se. Para ella o mundo começava em Ruy, acabava em Ruy, e só durára no cyclo em que elle a trouxera enfeitiçada. Ruy sequestrado ao seu amor: adeus mocidade, alegria chilreante, manhãs no terraço á hora de dar alpista aos canarios, projectos, ardores, phantasias, esperanças! Elle recusára-a: de que lhe serviam pois as turgidas pomas, a cinta ondulosa de serpente, e o divino ventre de geraneo e espuma, todas as expansões, todos os calafrios, todos os mimos, de que a adolescencia avelluda e povôa o corpo da mulher? Na contensão capitosa dos seus extasis, Ruy vira apenas a selvageria do goso que extravasa em gestos de braços e na effervescencia torpida dos beijos. Além da grosseira exterioridade lasciva e calida, tudo o mais lhe escapára d'aquelle amor confessado violentamente, refinamentos, fremitos, intellectuaes sobresaltos... o prazer dos sentidos vibrantes á visão da pessoa que se adora... os infinitos respeitos, supplicas balbuciadas por entre os dentes cerrados, transluzindo ameaça—e delicadezas submissas d'escrava—e esse fluido que sobrenada da alma amorosa, e enche de poesia tudo o que se palpa e respira, em torno d'ella.

Desceu ao jardim, direita ao poço. Havia um silencio opaco e terrivel, que pesava no ambito á semelhança d'um remorso que fibra a fibra estivesse roendo um coração. O poço era largo, com uma nora por cima, e a amura de pedra escancarada ao ar. Se ao menos elle diria «Coitada!» quando lhe fossem contar como ella tinha morrido!... E inhalava para se dar alento, grandes haustos d'ar frio. Os seus olhos deram co'as janellas do palacio, illuminadas ainda. Eram, d'uma banda, as janellas de Ruy, e da outra a lampada do oratorio, cuja porta abria sobre o quarto de dormir da senhora marqueza. Vamos! era preciso ser forte. Nossa Senhora estenderia os braços para impedir que ella se despenhasse no inferno. E pôz-se a medir a queda, esburcinada no boccal de pedra da nascente. Atafulhada de sombra, a pavorosa goela não mexia. De quando em quando, uma gotta escapava-se dos alcatruzes da nora, indo fazer lá no fundo um plhau! glacial. Entretanto a nevoa fazia aos arvoredos, toilettes de gaze, para a festa funebre de Luiza. Solicitamente o luaceiro vinha, aqui, além, tocar o bojo d'uma perola d'orvalho, as transparencias d'uma renda de bruma, os claros da argentea brancura immaculada... Ella desfolhou a rosa que puzera nos cabellos. Ergueu o espirito para o alto, com uma doçura branca de martyr; e persignando-se, enxugava as ultimas lagrimas. Na calada começou então a retinir uma campainha. Nos quartos da marqueza? Era a chamar Luiza. Oh pobre madrinha! Luiza estava já sentada á beira do poço, prompta a escorregar-se á agua. Porém uma instantanea sombra tinha passado nos stores do oratorio, cujas vidraças soaram no terraço em bocadinhos. Que era aquillo? Alguma coisa de anormal se estava passando. Quem gritára? Engano? Allucinação? Luiza fez um salto, esquecida da morte, e deitou a correr para d'onde o barulho partia. Quando entrou no quarto da marqueza, cahira pelas escadas, derribára Ezequiel que vinha pelo corredor, rasgára as saias nas portas, tropeçando nos moveis umas poucas de vezes. Viu a cama vazia e toda cheia de sangue nos travesseiros. A porta do oratorio estava aberta, e sobre a alcatifa, entre portas, a pobre senhora estorcia-se, quasi núa, vomitando sangue em espumosas golfadas. Luiza agarrou-se a ella, gritando que lhe acudissem: e em toda a casa, de repente, tinha sido um alvoroço extraordinario. Ezequiel, que foi o primeiro a chegar, inda viu a velha revolver os olhos, dar um estremeção que lhe retezou as pernas ao comprido. E de repente ficou-se.

—Coitadinha, coitadinha! Está prompta, dizia o velho em tom beato. Eu bem previa esta desgraça! Mas Luiza barafustava para que elle fosse chamar depressa o marquez, e mandasse á villa buscar o doutor Souza.—Depressa, depressa que ella vai-se-nos aqui sem sacramentos! Elle abanava a careca, tendo remodelado na face a mascara patriarchal dos dias serenos. Desolava-se muito pelos cantos. Como aquillo fôra depressa! Uma coisa que ninguem esperava! Lá conseguiram transportal-a para a cama. O corpo estava frio. Um dos braços, levantado, cahiu inerte nas roupas, apenas o deixaram.—Está morta! Mas ninguem vinha acudir! Que estava fazendo nos quartos toda aquella gente que não ouvira os gritos d'alarme? Ezequiel entrava e sahia, ia a uma porta, voltava á capella, idiota d'espanto, abanando as mãos, sem saber.—Ah menina Luiza, menina Luiza; eu bem lhe disse esta manhã. Chegou-se a ella:—O que ha de ser agora de ti?

A camareira não ouvia, agarrada á marqueza, e seguindo a installação da morte n'aquella physionomia de cera. A sua rica madrinha! A sua amiga! A sua unica affeição!