—Casa commigo, insistia Ezequiel. A minha vida é pouca coisa. Deixo-te tudo. Casa commigo.
Já o marquez vinha entrando, com Ruy e os seus amigos, e toda a gente da casa áquella hora estremunhada.
O fidalgo curvou-se para o leito: dizia phrases d'espanto, allucinadas e d'um grande effeito decorativo.
—Mas, senhores, ella resfria! Oh fatalidade! e outras muitas, que os amigos, um pouco lassos na digestão da ceia, trocavam por outras da mesma polida complacencia. Compuzera um rosto d'afflicção reprimida, conforme de rigor na circumstancia, e que foi muito apreciado pelo que dizia dos seus affectos maritaes. Lagoaças e pai Cezario tinham-n'o abraçado a tres quartos, dizendo—coragem! n'um magnifico accento de contra-basso.
Quando de repente Luiza deu um grito, vendo os olhos da marqueza irem ficando vitrosos. Alguns curvaram-se a vêr. Ezequiel e Lagoaças trouxeram velas accesas. E o choro das creadas abriu de repente no quarto uma ladainha horrifica de lamentos. Uma especie de teia d'aranha revestia devagar as pupillas pallidas da morta.
—O espelho, o espelho.
Ezequiel trouxe do gabinete um espelhinho de punho ornado; puzeram-lh'o á bocca.
—Inda respira!
Mas o pulso perdia-se. O coração queria calar-se. A aura hysterica descorrelacionava os movimentos de Ruy, cujas mãos buscavam juntar-se n'uma supplica frenetica de que ninguem fazia caso.
—Jesus! dizia Luiza erguendo os braços, entre as mulheres de joelhos. Onde está o nome de Jesus não ha perigo á salvação. E as rezas perdiam-se em ondas de soluços. Então o marquez tirou a boina da cabeça, avançou dois passos com o espelho que já não embaciára, collado á bocca da fidalga. E n'um tom alto: