—A senhora marqueza de Selmes morreu.[(Voltar ao Conteúdo)]
O SINEIRO DE SANTA-AGATHA
Ha quinze annos, vespera de Natal, n'uma noite bem frigida e chuvosa, ia eu em jornada através das serras, caminho da minha aldeia, a fim de consoar, conforme a velha usança, no aconchego patriarchal da familia: quando a sege que me levava estalou com fracasso, desabando em bocados pelo chão. A custo pudéra salvar-me do destroço, que a sege velha e de correias, sobre duas grandes rodas esculptadas, esbarrondara de chofre contra um amontoado de penedos, e o cocheiro contuso em muitas partes do corpo, era quasi impotente para sustar os galgões dos cavallos sacudidos pelo terror da derrocada. No meio das trevas, áquella hora, sob a chuva sibilante, como encontrar agasalho?
Era no mais cerrado das brenhas. Lugubres penedias estacavam por toda a banda.
Asperas montanhas pareciam vir a despenhar-se sobre as gargantas estreitas da passagem. E nem a mais dubia fogueira de pastores, casinholo de coutada, voz ou campanario, revelando a proximidade de creatura humana! A muito custo podemos remover do caminho as bagagens e destroços da pesada traquitana, eu, o cocheiro e mais um velho creado que me seguia a cavallo.
Com fortes brados, aos quatro ventos do campo, fomos chamando alguem que alli vivesse; mas nem sequer latidos de cão logramos saccar das goelas carbonosas da noite. Sempre aquelle ruido prostrado, regular, desesperante, da chuva nas urzes e pinheiros anões, que o vento trazia e levava no mesmo agreste rythmo, como o jogo uniforme de uma joeira que joeirasse d'alto, bagos d'agua frigidos, e crueis.
Por infelicidade, o cocheiro não era do sitio, e mal sabia dizer d'aquelles caminhos incertos. Beja inda talvez ficasse a nove leguas d'ali. Os cavallos extenuados não queríam marchar. E olhavamo-nos interdictos, á luz da pobre lanterna que por milagre escapára ao desastre.
Emfim, já nos decidiamos a ficar por baixo das azinheiras, n'algum abrigo escavado da montanha, quando se ouviram badaladas de sino distinctamente.
—Graças a Deus! exclamei eu todo alegre, que vamos ter guarida no passal do bom padre ou eremitão que d'aquelle campanario nos está chamando. Onde é, cocheiro?
O homem esteve sem responder um bocado. Era um alemtejão supersticioso, tostado, leal, e gigantesco.