—Aquillo, senhor, disse alfim o colosso, fica por traz de cerros que levam vinte horas a galgar a um homem. De noite, sempre os sons parecem mais perto, e enganam uma pessoa nas contas que deita.

—Bom! mas que sino é aquelle? Convento, freguezia, castello ou casa do diabo?

Vi o rapaz benzer-se com um movimento brusco, e lentamente ir contando, que era o sino de Santa-Agatha, ruinaria maior que uma cidade, com quatro torres dominando as chapadas dos montes, e casarões aonde ninguem tinha ido desde que houvera lá fogo.—Ninho de demonios e malfeitores! Em trinta e tres, a guerra civil correra lá, farejando as riquezas do culto—as freiras tinham debandado pelas serras, com os seus habitos brancos e os seus rostinhos macerados—por quatro dias as chammas lamberam os sanctuarios—e diz que duas ou tres religiosas, entrevaditas, centenarias, se deixaram morrer nas suas cellas, cantando psalmos, por não haverem já parentes e amigos, em cujo seio ir acabar. Agora só voltava ao mosteiro algum maltez perseguido, ou pessoa empenhada em roubar cantarias, alguma porta de carvalho, e restos d'alfaias sepultas nos entulhos.

Lentamente então, como um fumo d'incenso que oscilla subindo pelas incertezas penumbrosas da neve, assim a lenda se formára e fôra condensando, detalhando, subindo em espiras poeticas, dos claustros gothicos da velha abbadia. E o cocheiro accrescentou:

—Pelos modos, os diabos dizem lá missa a deshoras, com mitras que nem bispos!

—Venha essa lanterna, disse eu sem mais ouvir. Meia ração d'aguardente e tabaco! Vossês abriguem-se ahi como poderem, que eu já volto!

—Mas onde é que o senhor vae?

—Ora essa! á abbadia. Tocou-se á missa: o diabo já deve ter subido ao altar. O cocheiro ainda quiz accumular obstaculos; até que vendo-os sem resultado, apontou-me o caminho provavel do mosteiro, lá longe, sobre as altas serranias, a cujo sopé se tinha desmantelado a nossa berlinda de viagem.

Pondo-me a caminho, confesso, foram-me os primeiros passos bem duros. O terreno pedregoso abria fendas onde os pés se enterravam em lama; tufos d'esteva e piorno vedavam a passagem, circumdavam-me, prendiam-me o fato, ou vinham dar-me bofetadas nas faces com as suas mãos pegajosas. E assim fui mais d'uma hora, tropeçando d'um lado e cahindo d'outro, pelo espinhaço lugubre da cordilheira. Entanto as nuvens desdobravam-se, menos espessas, correndo, té que uma claridade de lua velada poude orientar-me na marcha.

Alguns corpos avançados da ruinaria começaram alfim a mostrar-se, pequenas capellas com arcos gothicos, sombras esguias de cyprestes, casarões onde bulia a herva açoitada pelo vento... Dez passos além, achei-me n'uma alpendroada vasta de pedra, toda em arcarias de capiteis mutilados. Ao centro murmurava uma fonte, cahida ás gottas sobre uns restos de tanque esculpido; e via-se um portico ao fundo, com feixes de columnelos, e nichos de apostolos em oração.