Mais dois passos e entrava na igreja. Parte da abobada tinha já cahido. Arcarias altas, flexuosas, em series parallelas d'uma extensão desmedida, iam até ao sanctuario. No parapeito d'um ou outro pulpito, pendiam tapetes de hera—e por um bocado de muralha derrubada via-se o claustro, contrafortes, arcos butantes, rendas de janellas manuelinas, estatuas partidas, e montões de pedras lavradas que a vegetação damninha ia vestindo, engolfando, no labyrintho das suas teimosas grinaldas.
Lentamente, emquanto marchava entre as maninhas plantas da serra, eu fôra evocando da nevoenta penumbra das minhas reminiscencias d'infancia, a lenda que tantas vezes tinha ouvido contar, pelo inverno, quando finda a ceia os pastores e couteiros vinham fazer circuito comnosco, de roda do brasido, na cozinha abobadada da herdade, cujas chaminés se erguiam dos tectos, como duas torres quadradas de solar.
Lembrava-me de ter ouvido a minha avó, como a abbadia fôra uma das mais venerandas casas de reclusão de todo o reino, successivamente enriquecida pelos reis, visita de prelados, e refugio de muitas princezas e bastardas que alli dormiam o ultimo somno, nos seus jazigos de pedra, de cujos nichos a velhice alluira figuras e inscripções.
Apesar das enormissimas riquezas que as religiosas mandavam repartir pelas gafarias e misericordias da provincia, a regra impunha ás monjas uma pobreza frigidissima. Dormiam n'uma tabua, as pobres servas, sem enxergão nem cobertura, e com uma pedra tosca por cabeceira. E vivendo de hervas e legumes, sem mais tempero que um fio d'azeite e um punhado de sal, ellas appareciam na estamenha branca das tunicas, afiladas na sua espiritualisação perpetua de prece, antes como umas sombras de loucas, espectros de mal soffridas angustias, marchando nos claustros em genuflexões de extaticas, e como dobradas ao peso das camandulas e das orações. Um velho Papa da idade gothica doara então o mosteiro de reliquias, compadecido por austeridade tamanha d'enclausura, e permittindo que as monjas pudessem dar-se a glutonaria mundana d'um cordeiro guisado, na ceia do Natal, sob a condição expressa de ser branco e acabado de nascer.
Sempre na minha lembrança, desde então, tinha ficado aquella humilde historia das freiritas, dormindo em tarimbas de castanho, e jantando couves de azeite e sal. No collegio, muita vez, punha-me a fazer esforços para me representar a figura benevola d'aquelle santo Papa da idade gothica, risonho sem duvida e encarquilhado, com o seu barretinho de purpura, e um grande annel de turqueza, concedendo ás filhas de Santa-Agatha o cordeiro branco para a consoada do Natal. Vinham-me aquellas coisas n'um fundo de fantasia, para assim dizer bysantino, sem perspectiva aerea, com o nimbo de oiro nas cabeças, e pregas miudinhas no bocatel das roupagens—e tão longe do nosso tempo! tão longe do nosso espirito que eu acabava sempre por sorrir á inverosimilhança das legendas contadas por minha avó.
Todos os annos na herdade, depois de se haver dito a ladainha diante do presépe armado no oratorio, com grande pompa de vellas accesas, cobertas de sêda, paineis de santos, flôres, amuletos e cearinhas de trigo grelado em pratos da India, ás escuras, durante os vinte e cinco longos dias de uma lua—todos os annos, á hora de servir a espetada de lombo de porco com migas, da ceia do Natal, quando já tudo se assentára em volta da mesa, eu me não esquecia de inquirir.
—Avó. Se o cordeiro de Santa-Agatha estará tenro e capaz de ser manducado pelas freiritas sem dentes?...
Lá me sorria a bôa velha, com uma expressão de melancholia que eu n'esse tempo não era capaz de interpretar. E á direita d'ella marcando intervallo na mesa, um talher inactivo aguardava meu avô, que fazia já onze annos de fallecido quando eu tocava os dezeseis.
Ai! esse talher era a grande nota solemne da ceia, o symbolo sacrosanto do espirito de familia, perpetuando o respeito do nome através das revoluções da idade. O copo estava cheio, o guardanapo desdobrado, e chegado á mesa o tamborete.
A todo o instante ia entrar na sala o phantasma do velho lavrador, com a sua matilha de galgas argelinas, e uma d'aquellas grandes risadas que elle dava, em nos vendo felizes a todos.