Ceia de Natal! Ceia de Natal! Não seria eu, não, que d'aquella vez havia de começar cantigas ao Deus-menino, ante o presépe da nossa casa das Torres.

Nem iria assentar-me, tão pouco, entre meus irmãos, partilhando a espetada de lombo no meio da gralhada das creanças, e dos sainetes dos pastores e maioraes. Oh como o frio da montanha me fazia agora lembrado o madeiro do Natal, tão escrupulosamente escolhido entre os troncos mais corpulentos das cathedralescas médas d'azinho da nossa provincia; o madeiro que as comadres vão vêr a casa das comadres e cuja enormidade d'alguma fórma passa por luxo e synthetisa a abundancia da casa! Ceia de Natal! Ceia de Natal! N'aquella noite de cordealidade, tão intima na vida do campo alemtejano, em que o primogenito da familia tem obrigação de consagrar aos creados o primeiro toast da ceia, a minha ausencia, eu bem n'a via! trazendo lagrimas aos olhos de minha mãe, e longos annos permanecendo archivada entre as tristezas do seu amantissimo coração.—Paciencia! dizia eu, deixando os meus olhos correr por cima da phantastica decoração de ruinas, como quem busca fixar a realidade no meio das oscillações que a sombra despregava das arcarias.

Cessára a chuva de todo, e o vento que ennovelava os castellos de nuvens, muito baixas, vinha depois marrar com ellas de encontro ás fragas da cordilheira.

Torvos luaceiros cardavam sobre as coisas, aspectos pardos e monacaes, d'esse tom vago, inquietador, inexplicavel, que permitte á imaginação de agigantar o que apenas entrevê.

E assim dirieis que se alongavam na noite os butareus das quatro torres, e que os boqueirões da treva mastigavam, e como lanças tremiam os columnelos do templo, espetando na abobada imaginarias cabeças; emquanto patrulhas de cyprestes paravam a escutar, se áquella hora rastejaria no mosteiro um infinitesimo de vida, só que fosse. A primeira coisa que notei, foi que não estava só, porque ao raspar d'um phosphoro para accender o cachimbo, pude lobrigar na portaria vultos de gente acocorada.

Pouco a pouco, os meus olhos afizeram-se a destrinçar na sombra os objectos; e entrei a bispar vultos pequenos, corcovados, que surgiam por todas as bandas da serra, vagarosos, cosidos ás pedras, derreados do caminho, e arrastando sapatos de trabalho, com gorros nos olhos e capotes negros sobre os hombros.

Pelas encostas, longe, perto, muitas luzinhas deslocavam-se em direitura ao mosteiro, como fanaes guiando a um conclave outros tantos conspiradores.

Duas ou tres cadeirinhas entram no adro, buscando a sombra dos arcos com uma cautela apavorada, e aos hombros de homens, que pelo rastejo dos passos e lentidão dos meneios, ia jurar tinham passado os oitenta annos. Em poz das liteiras, mulas brancas trazendo mulheres embiocadas em ponches... jumentinhos de trabalho com gente que tossia... e até n'uma especie d'esquife, um vulto entre roupas dava grandes gemidos, quando os portadores oscillavam mais bruscamente a padiola em que o traziam.

Muito embuçado na capa, eu ia-me approximando da turba, corcovado e arrastando os passos como os outros; e já sem medo, pois não podia ser capitania de ladrões aquella gente assim misturada de invallidos. Quando de repente, patas de cavallos fizeram estrupida nas lages, e eu vi fazer-se um movimento simultaneo em todos os magotes, para acorrerem ao encontro dos cavalleiros. Eram quatro. E dois d'elles, que porventura seriam os juvenis da cavalgata, a julgar pela ligeireza com que apearam, tinham vindo ajudar o que ficára sobre a cella, aguardando que o desmontassem da mulla branca onde viera escarranchado.

Era este um grande velho de cabellos compridos, em ligeiros flocos por baixo d'um chapeirão d'ecclesiastico, envolto n'uma capa com romeira de lontra, e de quem todo o mundo se acercava para lhe beijar a mão. Caminhando, espargia bençãos sobre as cabeças curvadas á sua passagem. Aprumava com esforço a grande figura biblica e severa, em cujas linhas fulgurava como um relampago genial d'estatuaria, e em cujos gestos calmos rescendia a solemnidade d'um apostolo enviado a remir d'um captiveiro.