Luiza era intelligente: alli se fôra educando, aprendendo, adquirindo pela familiaridade da boa companhia e da riqueza esparsa em obras de gosto, através dos velhos aposentos, essa cultura interior de sentimentos, essa exoticidade de preferencias, essa indiscutivel distincção de conversar e receber, que a tornaram depois tão appetecida cá fóra—isto realçado co'a turbulencia da creatura nascida em pleno campo, espojada nos fenos, e rebelde no sangue, longe das peias deformantes da sociedade. Só de longe a longe, á força de hydrotherapias complicadas, a senhora marqueza obtinha uma ou outra hora de vida serena, e conseguia furtar-se aos lugubres nervosismos da enfermidade. Era o feitio de Ruy, menos a juventude, mais a impaciencia. A custo lhe sahia o espirito das abstracções e somnolencias em que ficava embrenhado horas e horas; e exiguamente, distillando a lucidez como uma essencia, gotta a gotta, n'um ting-ling monotono. A sua vida passava-se n'um canto de capella, entre sombras, enterrada n'um fauteuil com baldaquino, e só de lá sahia para se entregar ao cultivo de quatro ou seis predilecções extravagantes. Resentia-se do claustro onde passára os primeiros annos de educanda, e da côrte onde tinha gosado os primeiros mezes de casada. Era uma natureza extatica, adorando as pompas do culto, os requintes subtilisados da lithurgia, os movimentos dramaticos do orgão no instrumental das grandes cerimonias—um pouco de mysticismo, n'um pouco de miguelismo, n'um pouco de idiotismo,—com paixões de plantas monstruosas e aves singulares, alimentando-se de fructas, vestida de antigos damascos e pompadours de raminhos, e tendo sempre bolos d'ovos no beniterio do seu genuflexorio. Era vêr a ternura de Luiza durante as crises da boa senhora, e a meiga servilidade da sua voz rebuscando as mais enternecidas musicas, para pedir perdão de lhe não ter adivinhado mais cedo o pensamento.

Essa ternura, Luiza não a fazia nascer exclusivamente da gratidão que nutria pela castellã: vinha antes da emoção que Ruy lhe dava, da febre que lhe produzia a lembrança da sua belleza fruste e singular. Todas as dedicações se fundiam n'ella, e assim todas as especies de desejos inquietantes. Vinda d'uma mancebia d'aldeia, onde rolavam a toda a hora palavras bebedas e acções quasi medonhas, Luiza achára entre os moços da quinta, nas conversas surdas da cozinha e da arribana, á hora da ceia, a continuação do que vira e ouvira em casa da madrasta. Fôra preciso um cuidado assiduo, nos primeiros tempos, para refazer-lhe o vocabulario, e transviar para intuitos mais limpidos, a tendencia de vicio que ella trazia no sangue, em purulentos coagulos. Se a educação e o mimo em que fôra subindo, á proporção que se insinuava nas sympathias do palacio, lhe haviam feito a lingua casta, e a expressão virginea, já por fim, no fundo, o terrivel sangue conspirava n'ella, co'as herdanças fataes da vida airada, phosphorejando ardores que a nubilidade ás vezes desencadeava em verdadeiras procellas. Inda creança, o seu amor pelo Ruy já não podia dizer-se immaculado. Não era esse idyllio de bambinos colligados na mesma adoração por uma boneca, nem a celeste comedia, inolvidavel, de duas cabecinhas attentas para o mesmo malmequer que se esfolha á beira d'um campo de trigo, sob o guarda-sol de sêda que a ama baloiça, sorrindo de os vêr tão sérios, os dois noivos pequeninos. Mas uma paixão d'inferior que se deslumbra pelos filhos da raça cujas perfeições não pôde igualar, paixão com haustos de posse, indeclinavelmente physica, prematura, perversa, e cheia d'estonteamentos já torpidos. Com a idade, aquella ancia de Luiza não se corrigia nem purificava, senão ia crescendo, accentuando, colorindo, na medida da sua adolescencia cada vez mais radiosa em seducções.

Nas férias, mal se sonhava o dia em que Ruy devia chegar, já ella não parava quieta em parte alguma. E eil-a passando os dias nos aposentos do menino, revolvendo alcatifas, mudando o logar do leito, perturbando a ordem dos quadros, a disposição dos mobilamentos, agrupando plantas, pelo que sabia das predilecções de seu amo—pondo stores e biombos em todos os portaes por onde francamente entrassem a luz e o ar. Na casa, os creados sorriam, como quem sabe de tudo—gallinha canta... E os ditinhos pullulavam. Mas um que era já ruço, muito gordo, quasi sacerdotal pela rigidez da compostura, costumava deter-se á porta dos quartos, tossindo devagarinho, a vêl-a trabalhar.

—É o Ezequiel menina Luiza.

Ella gostava d'esse, que a defendia sempre das animadversões da creadagem, e por toda a parte a cercava de deferencias tocantes. Mesmo, das suas palavras paternas, ruminadas n'um fundo de reflexão um poucochinho canalha, vinha-lhe uma sorte de lisongeira coragem. Ezequiel era o unico que parecia não pôr em duvida a ascendencia de Luiza sobre a outra creadagem. Emtanto elle ás vezes punha-se a esquadrinhal-a, na sua bonhomia de velho, deixando cahir palavras descuidosas aqui e além, para a fazer dar á lingua, e espaçando reticencias de proposito, no sitio onde a rapariga, simploriamente, logo ia prender revelações.

—Muitos parabens, menina Luiza. Faltam só quatro dias.

Ella, fingindo não entender:

—Ora essa! Para que, Ezequiel?

Elle ia entrando, punha o espanejador ao canto da porta, enxugava os dedos da pitada ao avental.

—Estas raparigas, estas raparigas!... E d'ahi que tinha? Não ha tanta menina pobre casada com pessoas grandes? Eu sempre queria vêr...