Levou-me para detraz da escadaria d'um pulpito. Engolfamo-nos por um portello baixo e tenebroso, em cujo trevo marinhava, luctando, na frialdade limosa da pedra, uma caterva horrivel de grotescos. E como transpunhamos o portello, o homem tirou da capa uma lanterna. Vi então diante de mim um velhito lesto, pequeno, azougado, os olhos debruados de purpura, e com um grande nariz pendido como um monco, até encontrar a aresta d'um queixo arqueado como a prôa d'um saveiro. Dirieis que as duas pontas iam tentar brava guerreia: a do nariz embirrando com a do queixo, a do queixo não sentindo lá grande sympathia pela do nariz. Mas felizmente interpunha-se a bocca, sentinella vigilante daquella discordia d'appendices, e que mesmo sem dentes, intervinha, mordendo o que primeiro rompesse as hostilidades.

—Que quer dizer toda esta mascarada? disse eu.

O velho olhava para mim com um riso estupido de bobo. Tinha um barretinho de sêda no craneo, grandes orelhas espalmadas aos lados dos olhos, a bocca em meia lua e um collar de barba dura, direita, branco sujo, prestava-lhe a caricatura demoniaca d'um bode, á luz fumosa da lanterna. Foi pelo corredor aos saltinhos, e eu seguia-o tomado de um espanto sem saber por que.

Ao fundo começava uma escaleira aberta na muralha, tortuosa, falhada nos degraus, e obstruida por grandes pedregulhos. E o velho começou a subil-a, levando a lanterna na mão. Como a escadaria era de volta acanhada, e o passo de espira excessivamente baixo e deprimido, forçoso nos era de subir corcovados, porque não fendessemos o craneo d'encontro ao rebordo dos degraus superiores. Fomos tropeçando assim nas pedras soltas e alluidas, partindo as unhas nas junturas da muralha—elle sinistro, lesto, arqueado, escorregando, pulando certo quatro e cinco degraus d'uma vez; eu agarrado ás pregas da sua capa e á morna viscosidade das suas mãos, cujas unhas se me cravavam na carne, como os dentes metalicos d'uma pinça.

—Afinal não me explicou que diabo vem fazer aqui toda esta familia.

Elle sorriu-se. Tambem d'esta vez não fizera caso da minha pergunta.

E eu começava a não vêl-o com olhos lisonjeiros.

A escada não tinha fim, caracolando sempre nas trévas humidas, onde passava o voejar dos morcegos, os guinchos dos ratos, e toda a sorte de sopros e rizadas maléficas.

O ultimo trago d'aguardente acaba de se me sumir nas profundezas da goela. E valha a verdade, eu ia perdendo um pouco a noção justa das coisas. Fórmas, rumores, simples idéas e suggestões me lançavam de roda, n'uma sarabanda de incoherencias.

Dir-se-hia nos iamos sequestrando, pouco a pouco, ao mundo normal e quotidiano, com os seus phenomenos e leis eternamente as mesmas, para invadirmos não sei que exotica região onde tudo era diverso: a atmosphera e a luz, as figuras, as sensações, e as naturaes affinidades de ser a ser.