Por instantes, quando o homemzinho passava na luzerna do luar lançada por alguma fresta da torre, eu ia jurar que elle mudava de figura, á proporção que ia subindo. Já não tinha na cabeça o solidéu de sêda preta. As suas orelhas avantajavam-se aos lados dos olhos despegando-se-lhe do craneo como as dos morcegos, em grandes pregas cobertas de cabellos. E deixei de ouvir o rumor dos seus passos, emtanto que a subida se tornava vertiginosa, inquietadora, embriagante. Cada vez os degraus me pareciam mais estreitos, o passo de espira mais apertado, e o caracol de pedra mais asphyxiante. E nas trévas da torre, emquanto eu ouvia os resfollegos do velho saltando os degraus com furias de possesso, um ar denso e gorduroso forçava-me o cavername do peito a centuplicar d'inspirações, como n'um paroxismo de syncope.—Ar! Ar!

A minha cabeça rolava entre vertigens: via moscas de fogo saltarem-me por diante dos olhos. E era como se cada um dos meus sentidos, estando separado de mim, não pudesse ou não quizesse procurar-me sensações nitidas e exactas—tanto as coisas que eu tocava me pareciam differentes. Larvas de gelo, escorregadias, sem fórma, tocavam-me nas mãos shake-hands bruscos. Abria então a bocca para gritar que me acudissem: e percebia que elle voltava logo a cabeça, porque sentia, positivamente eu sentia na cara o caustico dos seus olhos dilatados nas trévas, acobardando a minha alma varada d'um inexplicavel calafrio. Até que emfim chegamos a uma especie de sala rasgada de porticos, por onde a lua entrava. E rompemos n'ella como o estampido d'uma granada: o velho indo cahir de bruços no pavimento, e eu por cima d'elle, n'uma exaltação furiosa—a ponto de por cinco minutos rolarmos no chão corpo a corpo, engalfinhados, como se algum de nós pretendesse esquartejar o companheiro. Prestes porém o lesto demonio se me escapulira das mãos, e sem uma palavra, deixando a capa, correra aos varandins da torre a debruçar-se.

A sala era grande, com varandins d'esculptura aberta, que pareciam bordar uma antiga renda de cruzes de Malta e folhagens, sobre o azul pallido do céo.

Uma floresta de cordas, mastros, travessões e guindastes, emmaranhava o ambiente e corria de banda a banda. Pendiam sinos dos porticos, negros, immoveis, suspensos, como aves de rapina dormitando... mil tamanhos, mil formatos, uns grandes, outros pequenos, bojudos estes, aquelles campanulados... E na cupula toda aberta de lucarnas até á flexa, a zunida do vento fazia uma especie de côro em surdina, instrumentado a risadas e pequenos silvos de mangação.

O velho fizera um gesto. Uma badalada profunda sacudiu de chofre a ruinaria inteira, dos alicerces ás grimpas, e foi-se alargando pela cordilheira, attenuando, extinguindo, n'uma vibração magnifica de sonoridade.

Terrífico e supremo era o accento d'aquella lingua de cyclope, que o pulmão de bronze insufflára, no seu vagar prophetico, e que retalhava o silencio da noite como um echo da vida eterna, soado através da impenitencia dos homens.

Outra badalada mais forte, e outra, e outra ainda. Crucitando d'assombro, os bandos de corvos fugiam por todos os lados. E as massas de sonoridade precipitavam-se nos ares, desgrenhando uma procella de bramidos, e como um apocalypse prégado ao universo estarrecido a nossos pés. Para fazer dobrar alguns d'aquelles grandes sinos, o velho trepava aos varandins e supportes, desdenhando as vertigens da altura: e eu via-o marinhar então pelas cordagens, correr como um gato ao longo dos cabrestantes, suspender-se, desapparecer, cabriolar, suffocado, e insistindo, e voltando, n'um jogo macabro d'esforços, que ainda mais lhe accentuava a contornadura demoniaca que elle tinha.

A cada manobra do velho, era como se as badaladas me fossem batidas em cheio, no coração, derramando-se-me em crises d'angustia por toda a rede dos nervos convulsivados. Foi n'este estado que eu corri direito a elle, e pude agarrar-lhe as pernas no momento em que o maldito se preparava a descrever nos ares uma arrojada espiral, como Quasimodo, abraçando pela cinta o reboleiro maior do carrilhão.

Ao mesmo tempo, começava a produzir-se um phenomeno extraordinario. Seria illusão dos meus sentidos?... effeitos da minha sensibilidade doentia, que perdendo o caracter proprio, se mutilára, exaltára, para rolar depois nas phantasmagorias verdes da loucura? Mas affigurava-se-me que uma especie de vida magnetica ia atravessando as ruinas, como se a falla dos sinos houvesse resuscitado no edificio o genio hostil que alli reinava, e este agora reagisse, contra o germen christão que os nocturnos visitantes todos os annos insistiam em replantar no sanctuario.

Aquillo era evidente, pulsava na pedra, rumorejava na esfusiada dos ventos, cahia em gottas das arestas e das folhagens parasitas.