A principio disse commigo—é uma vertigem do meu espirito exasperado pelas extravagancias da viagem, uma perturbação do alcool que eu ingeri em dóses abusivas... O velho fizera-me frenetico... Os meus nervos estavam carregados de fluido... Porém já na egreja me ferira esta percepção de movimentos disfarçados, esta matinada occulta da sombra contra a luz, esta suspeita de bruxaria latente.
Tinha-me rido d'aquilo—Ora adeus! Estou sonhando. E agora, Jesus! não era engano. A sarabanda macabra rompia.
Muros e escaninhos começavam a debater-se n'uma lucta mysteriosa de encantamentos.
Em cada molecula, em cada penumbra, em cada vôo, a energia decompunha-se em fluidos antagonicos; um que tinha saudades do velho culto, e era mesquinho em quantidade; outro que assoberbava o primeiro, e se declarára no campo adversario. Mesmo, esta sombria batalha toldava-me a cabeça, estava patente á minha alma, obscurecia-me a razão; e o meu proprio corpo vibrava d'ella, e eu sentia em mim os dois guerreiros buscando derribar-se a golpes d'espadão. Não, não era engano! Andava tudo, falava tudo, mexia tudo, e tudo parecia sentir, deliberar e ter vontade. Dos baixos relêvos brotavam gestos, mimicas, summulas de dialogos...
Iam falar as boccas das estatuas. Os velhos doutores resuscitando os velhos schismas. Velhos demonios trucidando as ingenuidades da fé no carnaval das velhas ironias. Muitos santos pretendiam mesmo disputar com os demonios.
N'um baixo relêvo da Ceia, a figura do Christo ergueu-se e bateu com força na meza, colerico por um apostolo se rir, quando elle, sagrando o calix, disse do vinho—este é o meu sangue!
Debaixo dos pés da Madona, renasciam as cabeças da serpente, á medida que ella as esmagava.
E uma circulação impetuosa girava nas arterias da pedra, insufflando vida ás columnatas, fazendo palpitar as rendas das ogivas, e dando apoplexia ás faces das cariatides.
—Velho! Velho! exclamei eu fóra de mim, deitando-lhe as mãos ás goelas. Quem és tu? Fala! D'onde vens? Que queres de mim?
Já a raiva me escumava nos cantos da bocca. A minha gana seria esmagar-lhe a cabeça d'encontro ás pedras da muralha. Porque eu via n'elle o médium da farandola macabra que ia na egreja. Eram obra sua os tregeitos dos monstros esculpidos nas columnatas, o riso mau dos demonios-morcegos nos frisos manuelinos do côro; emfim, o exaspero do Christo, no baixo relêvo da Ceia—e todos os fremitos, todos os sôpros, todas as oppressões, todas as desconfianças, todas as risadas, que eu ouvia, que eu sentia, e passavam por mim o visco do seu contacto asqueroso.