Á sua voz obedeciam aquelles milhões e milhões de forças occultas e satanicas: e elle tinha o dom d'arrastar na espira lôbrega dos seus maleficios, o desgraçado que se lhe approximasse.
Oh, não era ausencia d'energia physica que me impedia de o acabar—elle era magro, ossoso, quasi decrepito... Mas a sua vista dava-me um embaraço! Com o mais ligeiro impulso eu poderia derribal-o. Mas um assombro terrivel, um pavor inexplicavel, uma fascinação que eu não sabia definir, amordaçavam-me, faziam de mim um destroço de captivo em poz d'aquelle tenebroso e phantastico vencedor.
A essa hora, na egreja, tudo estava a postos. Pela abobada cahida, eu pudéra vêr, a nossos pés, o côro profundo, sobre uma massa amarellenta de pilastras fasciadas de relêvos. D'alli surgiam á luz dos brandões, as primeiras bancadas de carvalho, com logares separados, onde cada figura de monja apparecia dobrada sobre a estante do livro de rezas.
Na grande cadeira gothica da abbadessa, a meio do côro, duas vellas faziam brilhar o baculo de oiro, uma mitra mexia ás vezes sobre uma cabecinha pellada de centenaria—e para traz a sombra invadia tudo, e via-se na parede uma rosacea sem vidros, por onde entrava, poeirenta e diaphana, uma grande cheia de luar. Depois a egreja enorme, com as esculpturas mutiladas, as rendas em bocados pelo chão, os nichos, muitos, desertos, e os jogos e caprichos da luz e da sombra, forjando effeitos de scenographia formidavel, de cujo tumulto, ao fundo, o altar mór destacava n'uma apotheose de magnificencias, entre a fumarada do incenso, e os vôos dos pombos espavoridos.
O velho reaccendeu a lanterna. Havia ao centro da casa uma especie de grande cravo de castanho, com teclas de cobre oxidado, aonde vinham ter as cordagens de toda aquella sinalhada. Com gesto placido elle conduziu-me ao teclado, sobre cuja arca depuzera a lanterna escancarada. E desenrolando um grosso manuscripto de musica, pol-o na estante, e fez-me signal a que me assentasse n'um monte de cordas que estava perto.
A musica era torturadamente escripta, coberta de emendas, intercalada de referencias á margem.
É obra sua? perguntei eu. Elle fez que sim com a cabeça. E começou; já o arcebispo ao altar dizia o orate, e soava nos mosaicos da basilica o rumor dos que ajoelhavam.
Ahi começa o velho a fazer soar o carrilhão, e eu já sinto outra vez os meus pavores tomarem fórma, e as minhas angustias irem cavalgando extravagantes bruxarias. Cada vez mais á roda dos meus sentidos, fosforeja e zumbe esta encarniçada lucta dos dois fluidos antagonicos, que a pouco e pouco se depuram, quando a minha percepção lhe consegue fixar a transcendencia.
Um revindica o culto das florestas, das aguas e dos rochedos. É a grande alma pagã da natureza, que impulsiona os mundos d'uma vida extraordinaria, e tem voz, no bramido das vagas, e faz as flôres e os archipelagos, e chispa das rochas que o ferro morde, e chora lagrimas de leite nas folhas arrancadas da figueira. É o mais antigo, é o mais forte: e a todo o transe elle tenta reconquistar o solo, com a audacia heroica d'um régulo expulso de dominios seus. Tem a symbolica dos antigos mystérios, o outro. E bisonho e tenebroso, desceu do outeiro onde uma noite uns soldados estavam crucificando um vagabundo. Prégando jejuns e penitencias, emquanto ia fazendo da cobardia uma virtude, e não sei que refrigerio da morte, gritava ao mundo—venho destruir a obra da Mulher. E por entre o unisono das harpas, na choral dos serafins, ouve-se o alarido dos que na fogueira escruciam, e os latins do inquisidor que os manda morrer em nome da misericórdia celeste.
—Velho!