A primeira investida é confusa, o velho treme de medo, correm-lhe lágrimas na cara, quatro e quatro, e murmura não sei que palavras cabalisticas. Eil-o se endireita e recomeça.

E pouco a pouco a minha alma abre as asas e suspende-se n'um paiz lilaz de supremos extasis acusticos.

Já a riqueza dos timbres e a gracilidade dos motivos me fazem esquecer que seja um carrilhão de sinos que eu escuto. Alguma coisa da potencia orchestral do orgão, profunda, gothica, lithurgica, mas mais unida, mais colossal, mais grandiosa, se evola d'essas campanulas de bronze que faz soar no meio das serras o mais prodigioso maestro do mundo. O carrilhão faz-se voz da architectura de repente, e o desdobramento na musica dos caprichos floreteados na pedra pelo cinzel—tanto os meios d'expressão se centuplicam e vão fasciando de originaes melodias, arrancos trágicos e indomáveis rouquejos de paixão.

A voz de cada sino presta uma inflexão, uma emoção á voz da cathedral que desperta e vive como um ser perplexo e gigantesco: e d'aquellas resonancias que a mão do artista humanisára, como interpretando um estado d'alma doloroso, a angustia d'uma raça, cahiam tristezas, desprendiam-se adeuses, voavam recordações... recordações de vozes ouvidas n'outro tempo, na bocca d'alguem que eu, valha a verdade, já não sabia dizer quem fosse.

Vamos ao Credo. O carrilhão centuplica o enxame instrumental de grupos harmonicos, e é o momento em que o universo une a bocca á poeira, para afirmar essa fé que elle tanta vez terá sentido esmorecer no coração. Oh, a musica do velho era uma grande opera de effeitos supremos, onde a alma se banhava aspirando ao mysterio d'um ideal celeste e inaccessivel. Vinha d'ella uma intensidade de dôr heroica que dava soluços á melodia unanime dos motivos symphonicos; desencadeando-se em rajadas no badalar dos grandes sinos. A principio era uma coisa lenta, que se apagava como um rythmo de reza, de nave em nave.

Era uma grande litania de humildes, cortada por algum soluço afflictivo, e em cuja penumbra se apercebiam circulos d'almas cada vez mais vastos, n'uma paisagem de ballada, livida e nocturna.

Outros soluços vão repercutindo o dobre d'aquella angustia suprema, n'um côro trágico de sessenta seculos de soffrimentos.

Já o effeito cresce, desencadeia-se, rebenta. Ha gritos funebres, insurreições apenas suffocadas, roucas ladainhas que chegam de longe pedindo socorro...

Ai! n'essa apotheose de crença espiritual, por vezes a estridencia dos brados faz suspeitar o terror em vez da luminosa confiança que deita a cabeça no regaço da fé, e a imposição feroz d'um credo absurdo, em vez de simples doutrina conciliante ao caracter, e inteiramente suave ao coração. E o offertorio passa, a campainha do acolyto annuncia o Sanctus, e o sacrificio da missa principia.

Emtanto que no meio d'aquellas instrumentações picturaes do carrilhão, d'onde o mysterio da missa se ennubla e desenvolve, sempre o pensamento musical podia seguir-se, com a pureza d'um psalmo; tão limpido, que eu cerrava os beiços de medo que o meu halito embaciar pudesse, a crystallinidade d'aquelle adoravel motivo.