Mas da bocca dos sinos, como d'uma cornucopia emborcada, vão golfando inumeraveis turbilhões d'espiritos fatuos, sylphos de carrilhão, vibrações tornadas fórma que vão e vem, sobem e descem, cabriolam, zigzagueam, rolando, partindo, tornando a ir, e diffundindo-se nos longes em grandes circulos concentricos, onde as figuras se perdem emfim, n'uma bruma côr de cinza. Todos são excessivamente pequenos, com uma multidão de caras differentes, pequeninos braços, pequeninas pernas, que se agitam n'uma quantidade de mimicas pittorescas. Apenas escapados dos sinos, eil-os correm uns ao encontro dos outros, larvas do medonho, embryões do pesadello, conforme a imanação sonora d'onde procedem: e agarrando-se pelos hombros, continuam nos ares a fantastica batalha que eu assignalára já para cada atomo das ruinas. Cada vez mais, cada vez mais, esses milhares de anões parecem recrudescer das sinistras gargantas do bronze, e bem depressa elles foram tantos, que faziam uma espécie de exhalação fumosa interposta aos meus olhos e os objectos, que se alongava depois n'uma grande lingua, rapida e turbilhonante, ascendendo na flecha audaz do campanario.

Já a torre estava cheia d'aquellas larvas cúpidas do som, sedentas de lucta, phreneticas de movimento, em cuja carcassa podiam vêr-se todas as espécies de caras, idades, sexos e configurações. Tinham umas a côr verde das folhagens; eram as mais numerosas e as que mais robustamente cabriolavam. Mas outras eram pardas, alongadas, noctiluzentes, com a vibratilidade dos vermes e a cabeçorra disforme dos peixes-sapos. Havia-as corcundas, havia-as tortas, havia-as barbudas. Encarquilhadas, hydropicas, leprosas.

Em figura de rato, em figura de sapo, em figura de morcego... e mesmo certas pareciam esqueletos d'aves antediluvianas, marchando aos pinchos, com um grande bico maior que o corpo, direito, espesso, que não podiam erguer da melancholica postura em que o levavam pendurado. Tinham asas quasi todas; algumas eram armadas de espinhos, outras traziam capuzes sobre os olhos, o breviario na manga e camandulas á cintura: e até muitas, brandindo fachos, corriam através da batalha, pondo um clarão de sangue em todo esse pavoroso arraial de maleficios.

E as que nasciam iam empurrando as que já eram adultas.

Crescia a chusma atropellando-se, comprimindo-se: até que não cabendo na torre, cahiam pelos varandins, aos milhares, ou esmagadas contra a parede ahi seccavam e por fim desappareciam. Na debandada, um panico lhes convulsionava ainda mais os pequeninos membros, e de rustilhão precipitavam-se, agarradas umas ás outras, e dispersando-se em circulos, quando já as suas figuras pareciam ganhar d'aptidão o que iam perdendo em nitidez de contornos. Pelo céo, aquelles circuitos simulavam fortes migrações de passaros cinzentos, cerrando os seus exercitos até aos confins do horizonte.

E mal os sinos paravam, havia um claro turbilhão de mostrengos... só um ou outro mirrava, n'uma asfixia de silencio, lentamente, pingando ás gottas no chão que o consumia, ou ficava cabriolando nas cordas em piruetas de acrobata, ou pouzado n'um ferro, arésta, teia d'aranha, entrava a balouçar-se monotonamente, até agonizar de todo e desfazer-se.

—Oh Deus! Deus grande, Deus omnipotente e misericordioso! ampara, por quem és, a minha fé, e não deixes apagar na loucura a bruxuleante luz da minha razão.

Quando o arcebispo ergue a hostia, e sôa em concavo pela igreja, o bater das mãos contricto sobre os peitos, porque é que este musico soluça, errando a vista pelos angulos da torre, á procura d'alguem que alli não está? E a sua figurinha de satyro arrepela-se, lugubre e grotesca, como a d'um macaco que tivesse por dentro a alma contricta d'um christão. Já as pombas volitam de novo sob a cupula, brancas, purissimas, adejando outra vez pacificadas, quando os ultimos turbilhões de mostrengos se despregam dos sinos mudos, esfusiando pelas ogivas, sob os lategos da uncção celeste que se irradia da hostia, feita carne, e do vinho do calix, feito sangue.

No momento, o benedictus segue, e o carrilhão murmura de mansinho, como n'um unisono de violinos e harpas, a mais suave preghiera que o perdão do Senhor haja inspirado a um penitente. Manso e manso, os seraphins de pedra unem as mãos, batendo as asas de jubilo, com os seus typos frustes de creanças, em cujas cabelleiras se accende um oiro fosco d'aureolas; e das partidas lyras arrancam, com os seus dedos, vagos preludios de um mysticismo fluido, vaporoso, que embriaga d'extase, e em equivalencia approximarieis dos mais recatados perfumes de jasmim e de nardo, violeta e rosa branca, vaporizando-se de corollas abertas no claro-escuro d'um claustro, e que á noite espargissem suggestões de bemaventurança, na cella virginal d'uma noviça.

Sim! n'esse preludio do velho, chora talvez a imploração d'um crime antigo, expiado em annos de supplicas nunca ouvidas, e centuplicando d'eloquencia, através do tempo, té que afinal a tortura do musico excede os limites d'expressão concedida ao homem, e iguala e imita a eloquencia de Deus, para, confundida n'ella, coagir o Monarcha dos céos a perdoar. Tudo n'este supremo instante a solicita, os fieis que voltam a face para o carrilhão que os arrebata, as esculpturas, as pombas, e o arcebispo emfim que ao dar a benção, estende para a torre o braço tremulo, e absolve d'um gesto o extranho musico.