Limpo de nevoas todo o céo de dezembro esmaecia, d'uma pureza elysea incomparavel—e argentea a lua rola, espalhando ao redor madeixas claras, como uma cabeça morta de baby, á procura do tronco, pelos valles, antes que o gallo da missa solte o seu primeiro apello, para o baptismo de Jesus feito creança.

Na poeira do luar, pelos rasgões da rosacea, um turbilhão de seraphins rompe na igreja, brancos de marmore, nascendo da nuvem como uma geração espontanea de caritas bochechudas, boccas em flexa, olhos de saphira, e o tom chlorotico, translucido, que participa do paraiso e da tumba, e no qual poderá lêr-se, mau grado a espiritualização da eterna estancia, essa infinita nostalgia dos pequeninos seres arrancados ao calor dos seios maternaes.

Por um instante, palpita sobre o côro alada tromba, como uma emigração de passaros radiosos, pyrilampos, borboletas, que oscilla e se desloca na fumarada argentea do astro, turbilhonando em rodopios d'apotheose: depois do que converge á torre, e pelos varandins enfia, n'uma espiral de sonho alvinitente. Mas é um exercito que lentamente baixa o vôo, silencioso, rufado apenas, no frou-frou das asitas quasi imperceptiveis. A alguns mal se lhes lobriga a cabeça, envoltos como voam, nas suas camisotas de nuvem; outros inquietos, não podem estar poizados muito tempo em qualquer ponto, e n'um phrenesi de movimento, mexem, debicam, bolem no teclado dos sinos, nas esculpturas, chamando-se, vindo em chusma rir de um monstro ou cariatide, arrepellando-se os cabellos uns aos outros, jogando as escondidas por traz das heras que abraçam a muralha, de roda dos varandins, pelas cordagens—e até um que escorregou nas lageas, ficou de bruços, choramingando, com birra, á espera de que alguem o fosse levantar.

Os mais robustos então descolam do pavimento uma das lageas, a um canto, e acocorados na terra, escavam com as unhas uma toca.

Pela segunda vez, o gallo da missa gritou da cupula, e elles, que o escutam, precipitam com furia o seu trabalho, a fim de que a tarefa esteja prompta antes que a ave solte o seu terceiro grito de alarme.

Bem depressa ha um buraco fundo no chão da grande sala, e—oh surpresa!—aparece um pé, um microscopico pésito de creança roxo de frio, inteiriçado: e logo depois do pé uma pernita, o tronco, uma cabeça... Já a curiosidade impertiga a pequenada, que se achega e acocora, em circuito cingindo-se pelos pescoços, n'uma profusão de momos espantados.

O pequenino cadaver está descoberto, e cada qual n'elle procura insuflar o ligeiro filete vital que em si conduz. Uns lhe aquecem as mãos com seus beijitos leves como abelhas, outros lhe sopram das palpebras a vilissima terra que lh'as come, emquanto muitos lhe fabricam uma samarra, com os pedaços que arrancam ás suas proprias vestimentas.

Emfim, a creancita ressurge, esfrega os olhos—dois ou tres calafrios passam de manso á flôr da sua epiderme opaca e ecchymosada—e a vida nasce, ha movimentos, pequenos haustos, suspiros... mas sempre á roda do pescoço um vergão negro estrangula-a, estygma de infamia paterna, que o velho encara estralejando os dentes, n'um terror confuso de assassino. Pela terceira vez o gallo canta, e triumphante, o turbilhão de seraphins levanta vôo, ascendendo pelo céo, n'uma espiral de nevoas côr de rosa.

Porém de repente, o pequenito recorda-se, volta a cabeça, estende os braços para o musico que de rastos avança, desesperado, por não lhe poder tomar as mãositas protectoras. Oh, era tempo! Ha já cem annos que elle assim vagabundea nas ruinas, sem repouso esse sineiro que amara uma abbadessa; e annos e annos desfilam, e sempre a terra a recusar sepultura ao amante, e sempre a colera de Deus a expungir da sua gloria, o monstro que assassinára o filho, no proprio dia em que elle foi nascido. Annos e annos o miseravel tentara apaziguar a colera do Eterno, vindo á missa do gallo da abbadia, interpretar pela musica do carrilhão fantastico as escruciadoras angustias da sua alma lassa, atormentada, mas ainda no fim d'estes esforços o céo que redimia a creança, como se não julgasse bastante a expiação do pae, abandonava-o!

Surdo, maldito, o desespero começa a babar-lhe da bocca, imprecações incoherentes. De novo o carrilhão blasphemo, vomita das campanulas de bronze, a sua bruxaria macabra de mostrengos. Os ultimos fieis arrastam as sapatas no adro, e pela montanha as luzitas descem ondulosas, hesitantes, como um bailado de pyrilampos.