Agora um, outro ao depois, os lampadarios se extinguem diante das capelas: o altar-mór não phosphoreja mais as suas rutilancias d'estofo e pedrarias: o arcebispo foi-se, as monjas voltaram talvez aos seus sepulchros, porque as procuro em balde nos cadeirões do côro, pela egreja e nos claustros, á chamma dos ultimos archotes que lambem de sangue os gestos das estatuas, as arcarias confusas, os baixos relêvos e os nichos.

Deito os meus olhos de roda, espavoridos, e ha risadinhas, voejos, as heras trepam em grossas lianas, que se abraçam nos columnellos da torre, e prolongadas, tenazes, n'uma luxuria contorcida de serpentes, alastram as suas pernadas entre as pedras, como uma avançada de exercito que em nome da natureza, toma posse do terreno que lhe havia sido usurpado. O terror dá-me epilepsias de fuga, d'uma vertigem, d'uma raiva! e precipito-me na escada, ás escuras, sem mais ouvir os queixumes do musico, que as vegetações vão sugando, assimilando em si, absorvendo, n'uma troncagem monstruosa de figueira.

Chego á igreja, quebrado pelas brutalidades d'essa queda espiral de oitenta metros. E atraz de mim não ouço mais que a floresta a esbravejar, tomando posse da ruina, e os estalidos da cantaria que rebenta, escarvada pela violencia das raizes que esconjuntam a architectura a punhaladas de ciume. Agarro um facho, em bramidos, delirante d'um medo que centuplica as minhas ancias de vida livre, em meio dos campos: e ao acaso, entre os cyprestes, pelo claustro, os risos guiam-me: bem depressa descubro uma luz vaga, coando-se por baixo d'uma porta baixa e carcomida. Dentro ha rumores, leves frou-frous de sêda que se acamam, tinir de pratos... E no phrenesi medonho que me agita, deito os hombros á porta—a porta voa, e uma orgia d'espectros patenteia-se, n'uma luz glauca em que as figuras mergulham, confundidas, alongando as roupagens pardacentas. A principio eu não pude destrinçar as lugubres carcassas, uma a uma, mas já a minha vista insiste sobre as fórmas... ha um festim servido sobre a mesa, flôres que se desfazem em poeira; e n'um brilho d'enterro as tochas ardem, mostrando á roda esqueletos de monjas, a devorar co'as mandibulas descarnadas, e cardeaes, marquezas, gentis-homens, que entre si permutam toda a casta de motetes dulcerosos.

E mais distante, á luz do fogo que enrubesce na chaminé de pedra armoriada, o senhor arcebispo tange um violão, meneando a calva emquanto a abbadessa ergue os seus vestidos veneraveis, para esboçar o primeiro passo do minuete, acordado nas cordas do instrumento.

—Rompe a manhã! grita o creado aos meus ouvidos.

Esfrego os olhos.

A nevoa esfarrapa chuveiros na montanha. É dia claro. Uma caleça nova nos aguarda. E o sineiro da abbadia? A gente sempre sonha cada asneira![(Voltar ao Conteúdo)]

PEQUENO DRAMA NA ALDEIA

Devo dizer-lhes que este Carlinhos era um adoravel petulante de buço preto e olhos claros, cheio de vivacidades com raparigas, prompto a rir, delgadito e forte, tendo pelos actos de bravura uma quasi religião. Compensavam-se n'elle delicadezas de femea, brancuras de mãos, flexibilidades de cinta, uma doçura candida de feições, toda a graça ondulosa emfim, dos que adolescem á larga, sem cuidados nem represalias paternas, com os primeiros esboços d'essa energia physica, tenaz, inquebrantavel, leviana e generosa, que ainda agora é tradição em certas raças da provincia, e guarda fama de povoado em povoado. A escóla fôra-lhe apenas um pretexto de troça, onde esse incorrigivel tinha posto em debandada a auctoridade classica dos mestres. E como n'esse periodo as primeiras desordens do sangue, ensaiavam pelo campo da aventura, mais agora ou mais logo, as suas sortidas, não havia mesada que chegasse, nem horas para folhear as lições. Demais, a sua impetuosidade que esplendia côr e frescura de saude, pouco dava á vida cerebral; portanto, voltou á aldeia sem curso, elançado de figura, tendo as olheiras symtomaticas do amor esbanjado, lendo romances, com uma arte especial de surprehender mulheres, e predilecções decididas por quanto fosse prazer.

—Doido, dizia a gente pobre da aldeia, mas que rapaz!