—Crédo! Santo Nome! São cartas que elle manda para a senhora.

—Para a senhora, sim, para a senhora mais nova. Eh! Eh! fazia elle batendo as palmas, n'um tom maligno d'avô condescendente. Essa cama que fique bem fofa, essa campainha que fique bem perto. Rapaziada, rapaziada!

Ouvindo estas coisas, Luiza abandonava-se, perdia a cabeça. E do coração subiam-lhe á bocca ondas de confidencias, gritos d'alma, brutaes franquezas de rebelde. A intensidade do seu sonho interior era tão forte, tão sobreexcitado o delirio da sua imaginação, que para seguir-lhe a trajectoria, Luiza compromettia-se mentindo, gabando-se de scenas imaginarias, sem quasi perceber que se calumniava. Não, Ruy não lhe escrevia. Não, Ruy não gostava d'ella. Mas Luiza, Luiza morria por tel-o ao pé de si. Esses dias eram uma doidice, e Luiza não dormia, Luiza não comia, Luiza não dava attenção á leitura, Luiza estava distrahida á missa da senhora marqueza. A cada instante, omissões no serviço, pequenos confortos descurados nos aposentos, portas abertas deitando correntes d'ar, stores erguidos nas janellas, que endoloriam os olhos da enferma, apenas familiarisados co'as penumbras cinzentas do seu canto d'oratorio.

Então a fidalga impacientava-se: as impaciencias traziam-lhe o nervoso. Era um horror. Para poisar os dedos no braço de Luiza, abrir o livro de rezas, dar uma dentada n'um bolo, a pobre creatura estava minutos em sobresaltos choreicos, debatendo-se contorcida, sentando-se e erguendo-se apenas se sentava, lançando da bocca palavras improprias, repetindo certos adverbios no meio das phrases: e amargurada, presa de terror, por ter a consciencia de não estar fallando bem.

Raro, raro, o senhor marquez que residia em Lisboa, na roda dos alegres viveurs d'então, se aventurava até áquelle deserto da quinta, calado, religioso, e com uma expressão claustral d'austeridade. N'essas poucas visitas, sua excellencia não vinha por certo estancar saudades de sua mulher, senão solicitar da pobre dama, mais uma vez, assignatura para alguma hypotheca que o auctorisasse a proseguir na sua vida libertina de velho rapaz. Chegava então pela noite, em caminho de ferro, estava até ao outro dia, e na madrugada seguinte, zut! elle ahi vai. As palavras que os dois esposos trocavam, eram uma simples formula de deferencia imposta pelo orgulho ás cogitações chocarreiras da creadagem, em que ella buscava mostrar o desdem que nutria pelo esposo, e o esposo parecia artificialisar ainda mais, a sua amabilidade correcta de marido desencantado. Na primavera comtudo, a visita do marquez prolongava-se d'alguns dias, como era o tempo das caçadas. Trazia então quatro ou cinco velhos amigos, alguns creados, e as matilhas de galgos requeridas para a diversão. A marqueza recluia-se mais, se é possivel, no seu angulo de palacio, pretextando que a luz lhe encadeava a vista, que o ruido lhe exasperava a migraine, e o aspecto da alegria dos outros mais fazia contrastar a sua mortal e esmaecida tristeza de antiga moribunda. E os caçadores ficavam sós, livres inteiramente para deixar correr sem respeito, n'aquellas duas ou tres semanas de campo, uma impetuosa existencia de barões feudaes, accesa nas risadas do bom vinho das cavas, nas correrias em pós das rapozas e lebres, e castigando-se á noite, finda a ceia, Deus sabe, entre os braços das mulheres que Ezequiel recrutava discretamente pelo burgo, na grande sala de lambeis gobelinos, com mobilias marchetadas de quatro seculos. Todas as manhãs, Ezequiel ia aos aposentos da senhora marqueza deixar galantemente um ramilhete da parte de seu amo, que á volta da caça lhe mandava em plateau tambem, a melhor peça da correria. Os fidalgos de ha trinta annos eram ainda mais inuteis que os de hoje. A mordomos e intendentes abandonavam a gerencia dos seus negocios interiores. Restos d'altivez faziam-lhes encarar desprezivelmente o que elles chamavam classes subalternas. Isto contrastando nas suas horas lucidas com a intimidade que a mór parte abria a fadistas e toureiros, nos momentos de vinhaça, por esses bordeis que ficaram celebres em cantigas do fado. Este marquez de Selmes foi como os outros, um perdulario espargindo fortuna e forças no rodilhão dos prazeres mais em voga ao tempo. Em Lisboa, dava talher a uma turba de litteratos, graciosos e moços de curro, com quem elle gostava de mesclar os seus jantares d'intimos, por manter o ar d'um grande senhor amigo das artes, requestado pela popularidade dos varios conventiculos elegantes da capital. E na quinta, aquelle mundo heterogeneo de parasitas representava-se um pouco, mais resumido, pelo critico Lagoaças, Alberto M., Marquez das Flôres, grande pegador de bois, pai nobre Cezario, e festejado Mattos, que fazia rir a sociedade referindo historias da Lisboa duvidosa, no seu aranzel comico de tatibitati. N'aquella primavera, a surpreza do marquez fôra Luiza, a grande Luiza que lhe surgia de repente uma senhora, e cujas infantilidades o velho galante distrahidamente afagára até ahi. Lagoaças, que era forte apreciador de fructos no cedo, foi o primeiro a chamar-lhe a attenção para a deliciosa frescura d'aquella maçã prohibida, que promettia co'os seus acres succos perfumar a bocca de quem lhe cravasse os dentes primeiro. Foi então um movimento geral de galantaria no grupo dos caçadores, sobre Luiza. Com a sua nonchalance habitual, o marquez dava carta de corso aos amigos, admittindo-lhes correr palacio a qualquer hora, em pós da famosa presa, se tudo fosse discretamente acontecido. Quem mais lesto e galanteador se antolhasse, mais esperanças poderia nutrir de successo. Alberto M. começou uma elegia.

Deliciosa aranha delicada,
E com pennugens d'oiro revestida:
Ligeira, dôce, setinosa e leve...
Tens a peçonha lubrica mettida,
Na caricia das patas côr de neve.
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Marquez das Flôres era outro genero: confiava na mocidade viril dos seus braços, e nas casacas vermelhas de caçador com que apparecia todas as manhãs no grande pateo da casa, soado o primeiro hallali nas trompas dos monteiros. E a batalha começou, estando Ezequiel empenhado em fazer triumphar o marquez.

Uma manhã fazia Luiza o ménage dos passaros, sobre o terraço, Ezequiel que chega d'acaso. Bons dias d'um lado, bons dias do outro, e começou uma conversa d'introito, ao fim da qual, sem se saber como, Ezequiel já fallava nas graças de seu amo, ideal dos fidalgos generosos, nata dos amigos commodos, e non plus ultra dos amantes discretos. Não é verdade, menina Luiza, não é verdade? Ui! que gorgetas elle lhe dava! Pares de calças que lhe abandonára, novinhos em folha! E a sua maneira de tratar então, como d'igual para igual!

—Boa pessoa, fez machinalmente a rapariga, é muito boa pessoa.

—Uma coisa não sabe a menina. Elle está doido por si.