Depois da benção, o sr. vigario geral pronunciou uma allocução toda faustosa e erudita, em que se comparava a vida a uma nau vogando no mar procelloso das paixões, entre escolhos de vicios e malquerenças; e alli sua rev.ma descompôz mais uma vez os seus adversarios politicos, attribuindo-lhes a ultima estiagem e a decadencia dos costumes; e com philaucia denunciou que os maridos não tratando senão d'eleições abandonam as esposas á phantasia das suas pobres cabecitas, do que se aproveitava o demonio para ir centuplicando os adulterios. Isto levou tamanho donáto a philosophar sobre a familia, e desfilaram as qualidades dos Zarcos, o seu amor ao progresso e á liberdade, e do que os povos de roda lhes deviam, pois ainda no inverno passado, os fidalgos tinham dado córte gratuito nas herdades perto, afim da pobre gente ter lume nas asperas noitadas.

Saltou d'aqui naturalmente nas inimizades que por tantos annos tinham separado as duas familias (inimizade não, emendou logo com um meneio unctuoso; diremos antes melindre, susceptibilidade ferida, pequena divergencia de familia—era de mui bonitos termos s. rev.ma! Inda que...) Mas, proseguia o orador, o distrito todo exultava de vêr unidas de novo as duas casas, todos davam graças.—E batendo no pulpito, com gestos de quem chama a si o melhor da christandade, uma imponencia no carão, fechou trecho com um latinorio dos santos padres, faustoso e seraphico, que por sinal mereceu uma palavra irreverente ao lavrador dos Panascos.

Quando a cerimonia acabou, foguetaria e vivorio estrondeavam por essa aldeia toda, repercutindo os entônos e ritornellos de fraga em fraga—enternecia a tarde nos campos com a descida do sol, uma poeira de oiro tamisava os fundos, aqui, além, immovel sobre o ar, e dando á paisagem velhos tons de pintura fanada. E o cortejo sahiu da igreja como viera, mas bem numeroso e mais rico, pois lhe estava adiccionada toda a Oriola, ganhões, creados, convivas, amigos, as duas velhas aias, e coisa pasmosa! a propria senhora viuva.—Anda, sempre te abaixaste, bem feito! dizia-se á da Fevronia, na passagem do cortejo. O coronel dera o braço á viuva que descera meio véu; o generalito, gazil como um rato sabio, levava a morgada das Palmas, muito birrenta de lhe terem descosido a cauda verde nabiça; e Dora pelo braço de Carlinhos, vermelha, comovida, grandes olhos de saphira humida, radiava a frenetica belleza d'uma virgem que se abala e palpita, ao primeiro contacto d'um homem.

O cortejo é que não ia directamente ao portão d'entrada da Torre, mas enfiou pelo enorme pateo de lavoira ao lado, a pretexto de vêr a funcção que se preparava aos servos e trabalhadores. N'um banquete monstro, S. Mathias e a Oriola congraçavam, comendo ao lado uma da outra, na melhor harmonia e folgança; e só no intuito de sagrar esta confraternagem, a viuva accedera vir a casa de seu cunhado, sem quebrar as juras que fizera, pois não passaria o terreno neutro do pateo. Desconforme como um dominio, era esse pateo de muralhas rudes e portadas soberbas, onde os varões de bronze raiavam, e pendiam das portas formidandas, como corações de molochs, os grandes cadeados de ferro. Descia-se das cozinhas por um balcão de pedra com escadarias lateraes e mutiladas estatuas, em cujos velhos pilares se vinha tanchar a dentuça dos corrimões estruidos. Diante do balcão, ia ao fim do pateo uma alameda de castanheiros gigantescos, murmuros sob a verdura das suas folhas acres, d'onde um frescor gottejava no esmaiar da tarde. Um grande portão aberto ao fundo dava sobre os laranjaes da horta, sombrios áquella hora n'um verde metallico condensado, redondos até ao chão relvoso pelas imbibições da rega, humidos, picados de fructa, e filtrados d'uma aura toda enervante em nupciaes essencias. N'essa alameda de castanheiros amigos, tantas vezes percorrido do pae e da filha, onde pela manhã palafreneiros passeavam á redea os cavallos de sella, ou vinham limpar o pequeno coupé de serviço, onde tinham logar as tosquias, as ferras e as matanças nas epocas da praxe; n'essa alameda tinham construido uma mesa sem fim para quem chegasse, homem, mulher ou creança, fosse d'onde fosse e viesse de onde viesse. Aos lados alargava-se o pateo até ás abegoarias, cavallariças e estabulos. E um tom de boda reinava por toda a parte; nas carretas de trabalho postas em bateria, mais os seus tropheus de forquilhas, ensinhos e pás, radiando das joeiras, arneiros e mulins, como panoplias em sala d'armas; nas paredes cobertas de murta e gilbarbeira, onde as corôas d'espigas maduras faziam rodopiar serpentes de oiro pallido; nas largas manjadouras que as bestas esfocinham rilhando os fenos perfumosos; em arcos de flôres de arvore em arvore, risos e saudações levadas a um delirio realmente captivante. Em quatro dias tinha-se abatido um rebanho de carneiros e bodes, o arroz viera n'uma quantidade de carretas, não sei quantos moios de lobeiro em farinha para a amassadura, o poder do mundo em couves, para mais de vinte pipas de vinho... E a Fevronia punha as mãos do error de moedas que ia custar a frescata ao fidalgo—mas coitada! era uma pobre, sempre foi atando ao cós das saias a mais funda taleiga de quadrados, e sumindo-se debaixo do chále a mais disforme escudella da sua pilheira, para arrepanhar as sobrasinhas. Ora, deixal-o custar caro! Em compensação, que grande kermesse em plena tarde, sob a viva e sagrada cupula das arvores, onde trigueiros e loiros dos dois burgos rivaes, se abraçavam cantando e rindo nos seus luxos domingueiros, cinta escarlate, chapéus de borla, jaleca ao hombro, e a camisa crua de grandes collarinhos molles, acolchetada pelo nó da goela. Com a largueza do terreiro, a malta farandolava em quantos recreios havia: por aqui atiravam a barra os valentões arregaçados até aos hombros, estriando as musculaturas bovinas nos rompantes d'uma destreza infrene aos berros de cada vez que alguem passava a baliza, ou não chegava a ella; por além bailava-se de roda das arvores, deitando as vagarosas cantigas do trabalho rustico; em tal sitio havia saltos, n'outro luctas, desgarradas n'outro; e tudo isto n'um borborinho infernal que ensurdecia a gente. Vinham chegando as raparigas de claros cabellos lisos nas fontes, com flôres no remoinho das tranças. E a Oriola abrasava de as vêr tão brancas, boas carnações flamengas, saude affiançada, perna dura, seio fecundo, dentes finos, e essa maravilhosa doçura d'olhos violeta, tão peculiar como era sabido, aos bastardos do amo Zarco da Torre. Ellas iam apparecendo a pequenos ranchos, envergonhadas dos de fóra, lenços em cruz sobre os seios inviolados, de mãos dadas e braços bamboleantes, como os recrutas em passeio.

Os negros da Oriola diziam-lhes então gracinhas, botavam-lhe rima na passagem; e era vel-as a rir escondendo os olhos c'os braços, abalando côr de romã umas atraz das outras, para dizerem de longe aos mariolas—que não se fizessem destemidos nem confiados, e fossem lá ter chalaças com as pretas da sua terra, perceberam? Mas a outra porção da Oriola por seu lado, gente madura e reflectida, ainda desconfiada da senhoril hospedagem na Torre, sempre tinha querido inspeccionar, vêr com os seus olhos, apalpar com os seus dedos, todo o maravilhoso arsenal agricola, instrumentos, machinas, animaes, bombas, poços, bebedoiros e hortejos—e por essa aldeia que viera, subia um respeito de gente cavadora e mandada, que mal disposta para o da Torre, agora se dobrava, reconhecendo n'elle o genio de um lavrador modelo. Ah! o que se chama grandeza, ordem, elegancia e precisão! Que gados, que acommodações, as cathedralescas médas d'azinho, pombaes, palheiros, ferramentas de trabalho!

Colossal tudo aquillo—e os tostados da Oriola baixavam os seus olhos arabes e premiam os seus beiços de negros, ante a victoriosa grandeza dos loiros de S. Mathias. Quem havia de esperar, compadre, uma coisa assim?—N'isto, um velhote grosso e vagaroso, que do balcão andava mirando tudo, apenas o cortejo apontou para o lado das abegoarias, poz-se a repicar do alto uma sineta: era o jantar. E duas philarmonicas romperam latindo musicatas gentias, emquanto as palmas, os gritos, os vivas e os saltos, centuplicavam de toda a banda.

E a viuva deixava-se ir entre as aldeias congraçadas, que no abandono animal da vida rustica, riam alto com dentes famintos, e na passagem dos amos, tirando os gorros, acenando de longe com os chapéus, erguiam meio corpo da mesa, para lhes dar bôas tardes familiares. Alguns mais ratões da Oriola—e sempre a Oriola teve fama de moços reinadios—botando cantiga ás raparigas, que chegadas tarde ficavam sem logar nas mesas, offereciam-lhes por cadeira os joelhos e por encosto o coração. Ellas riam largo, já menos esquivas; muitas, sollicitadas, davam-se por noivas d'aquelle e mais d'este; e á ordem do homensinho da sineta, chegava a creadagem com o arroz dos fornos, aloirado entre ramos de salsa, empilhando-se em alguidares desconformes, d'onde rompiam fumando, tenras, succulentas, as pernas dos perús e dos patos. Então foi uma loucura de vivas, saltos, gritos e cantares. Passava o vinho em picheis de barro, as saudes choviam nos estimulos da sede, o tenir dos pratos era inquietador. Nunca Carlinhos fôra mais querido que n'essa tarde placida de noivado, onde tudo ria á sua mocidade leviana; a Dora que elle levava pelo braço e readquiria vivezas de pomba; os pavões, que sob os telhados das abegoarias, inquietos, gritando d'entorno ás femeas, abriam enormes leques mosqueados d'ouro verde; nuvens de pombos que o ruido assombrava forçando-os a revoar de cimalha em cimalha; e ao largo a paisagem caindo n'uma paz luminosa, muito irisada em tintas subtis.

Ella foi-se isolando, isolando do ruido, até ao portão que dava para a horta; parecia conhecer aquelles logares, distrahida, como quem resuscita apagadas memorias. Olhava o muro de buxo talhado em fórmas architecturaes, circumscrevendo o jardim pela esquerda, até se perder n'uma folhagem aspera d'alfarrobeiras. Para aquelles lados n'outro tempo havia um murmurio de fonte: tinha sido uma noite sem estrellas, o braço de Zarco sustinha-a pela cintura e levava-a, de modo que os seus pés nem tocavam o chão. E assustada, ficára a ouvir aquele choro timido d'agua corrente: espera! ouço passos...—É o vento, disséra elle, e os seus beijos endoideciam-n'a. Lá estava ella ainda a gottejar na pequena concha musguenta, que um grupo de ephebos sustinha, cavalgando golfinhos. Fôra em maio, a flôr dos favaes enchia os campos d'essencias, o marido caçava o javali por Hespanha—n'essa noite elle tinha querido roubal-a, conduzil-a aos seus dominios—ella resistira, não! não!... mas o perfume da sua barba tão loira envolvia-a n'uma fascinação terrivel, e a bocca pequenina, sincera, humida, talhada a buril, ao mesmo tempo imperiosa e feminina, tinha-se collado por ella toda: quem poderia recusar cousa alguma? Ouvia ainda o breack rolando pelas asperidões da estrada, os cavallos que voavam, elle a guiar; e ao curvar-se para puxar as redeas ou chicotear os hanoverianos, o clarão das lanternas illuminava-o de perfil... Oh, as venturas absorventes que se resumem n'um momento de peccado! Dir-se-hia o perfil antigo d'um Deus hellenico, branco, herculeo, alado em juventudes divinas.

—Vaes ter frio, minha filha.

—Frio, eu, ao pé de ti!...