E do capuz negro do bournous que ella levava, forrado de pelles setinosas, os seus olhos ficavam absorvidos n'elle muito tempo, muito, muito. A noite fazia as arvores terriveis, interminaveis os campos; e apagando a perspectiva, approximava mais as montanhas, e punha traições na goela dos precipicios... Vinham-lhe a cada passo pequeninos medos, as pupilas verdes do remorso que a penetravam de faúlhas calcinantes—lá está um vulto além, n'aquelle canto da estrada... Os troncos corriam atraz d'elles com pernas de gigantes, ennovelando-se, augmentando em numero á medida que o breack fugia.
—Jesus! dizia ella n'um terror, são talvez espiões de meu marido.
Depois na ponte, um passaro tinha dado um grito, secretos escarneos foram ciciando pelos labios das folhas; de longe em longe, uivavam as raposas com fome. A cabecinha d'ella descahia no braço do cunhado, fazendo uma caricia penetrante. Era espirituosamente tocada, correcta, d'um modelo audacioso em que havia primores. E como ambos eram pouco lidos, incapazes de fazer um amor litterario, dialogado por imagens, cheio de contrascenas, permutavam as suas emoções tocando os corpos, n'uma descarga de volupias balsamicas. O que ella lhe admirava era a seriedade do aspecto, a forte enformatura dos encontros, uma força de gigante cingida em delicadezas de creancinha. Esse rapaz sem violencias, envergonhado de ser tamanho, uns receios de a molestar a cada beijo, silencioso, tranquillo, com melancholias brumosas do norte, subjugava pelo contraste, os impetos e os orgulhos da natureza d'ella, toda impaciencias, coquetteries e ardores.
Á chegada eram deshoras, cantavam os primeiros gallos em S. Mathias—ella nunca tinha por alli passado.
—Gente na estrada, estamos perdidos!
Manuel tinha atirado os cavallos por um olival a dentro, apagára as lanternas, e o break em solavancos lá ia arrastado pelos terrenos declivosos. Pararam. Um rumor de carros vinha da aldeia, guisos de mulas, a voz de um homem cantando... Elles, á escuta, ouviam bater os corações, com medo de alguem os ter pescado. Agarrada ao pescoço de Zarco, ella batia os dentes, tresvairada n'uma paixão.
—Viram-nos, Jesus.
—Não, escuta, redarguia elle sopeando os cavallos. Em roda, iam e vinham as sombras, no pavor das coisas sonhadas a arder em febre. Ella exaltara-se: adoro-te.
—Mas, por Deus, não grites! dizia elle.—Davam beijos de lava, o amplexo accendia-os, nenhum luctava, foram-se possuindo...
E agora velhos, inuteis na felicidade dos filhos, tendo-lhes dado tudo, sem amor, nem coragem, cheios de cabellos brancos, odiavam-se por desgraça!—Era ao fim do laranjal, o muro de buxo apparecia de novo, nespereiras em flôr abriam parasol por cima d'um portello baixo—toda a aventura se lhe reconstruia na idéa, nitida, chammejando horriveis saudades. Sim! os carros de matto abalando á meia noite de S. Mathias, a voz do homem cantando, esse fluctuante mysterio da noite, é verdade, um sapatinho de velludo que perdera ao entrar, por aquelle portello, ao collo d'elle... Oh, a medonha angustia de se não ter outra vez dezeseis annos! Para além, olival, terrenos declivosos: o break parára ao pé d'aquella grande oliveira.