—É verdade, murmurou ella suspirando; filhos só os tive de ti.—Chorava a sua mocidade agitada, as terriveis dôres que soffrêra, os orgulhos feridos de mulher.

—Ouve, disse-lhe então elle com supplica, não me tenhas odio, não tenhas. Dora é tuna creança, ama-a um pouco, assim como amarias a que nos morreu. Ellas parecem-se. Sobretudo, não lhe digas mal de mim.

—Ah, bem vejo que amavas tua mulher...

—E tu que amastes meu irmão?

—Mas é falso.

—De que serviria acreditar agora n'isso? Estavamos doidos quando nos amámos.

—Sim, doidos d'amor. Ai como a gente envelhece depressa!

—Razão para ficarmos amigos, já que tudo morreu. Fernando nunca veio a saber...

—Prouvera a Deus que assim fosse! Cala-te d'ahi! disse ella bruscamente. Na hora da morte ia beijal-o, repelliu-me; morreu, dizendo a horrivel palavra. E por tua causa! Não poderás dizer nunca que te provoquei. Quando vinhas, fugi-te muitas vezes. Tudo me abandonava então!...

—Esqueçamos: a vida dos nossos rapazes, exige. Vá, perdôa. Elles viverão seis mezes comigo, seis mezes comtigo. De mais, ficámos pobres. Os pobres não devem ter ruins paixões.—Ella cortava rosas, no rosal que extravasava de roda. As velhas aias tinham chegado entanto a pequeninos passos, arregaçando muito as suas sedas festivas; em carros de toldo, jumentos e mulas, a creadagem repleta, cantando, chalaçando, deixava S. Mathias caminho da aldeia. A viuva relanceou ainda os olhos por aquelles sitios, lentamente, como a impregnar a memoria d'aquella idyllica paisagem.