E para que ouvissem todos, fallando alto, pediu desculpa a Manuel Zarco de não assistir ao copo d'agua, mas sentia-se indisposta, tinha que receber os noivos... Elle abriu a porta do break, esperou curvado que ella subisse.
—Zarco, disse a viuva aconchegando-se a um lado, emquanto as velhas subiam e se anichavam tambem. Os nossos filhos que não demorem a partida, vão ter frio pelo caminho. Principiavam córos de grilos na espessura amarellenta das hervas, o sol cahia por traz das arvores; á esquerda, nos vagos fumos da tarde, Beja torrejava.
—Adeus, disse a viuva sem colera, estendendo ao velho as duas mãos descalças. Zarco sem fallar, beijou essas mãos inda pequeninas e brancas.
Os cocheiros tinham vindo; e sob o pingalim, os cavallos arrancaram o break d'ao pé da oliveira, em direitura á estrada.
—Adeus, disse a viuva, apertando ao seio as rosas que colhera no rosal.—Zarco parado, as mãos cahidas, ficára imbecilmente de pé, todo vasio de reacção.
—Eh, esperem, gritou de repente aos cocheiros.
O break tinha outra vez parado. Com os olhos estourando lagrimas, elle correu á portinhola com um pequeno embrulho para a viuva, que conforme disse, esquecera na igreja.
—Obrigada, respondeu ella com a voz um pouco tremula.—E o carro abalou. Junto da ponte, já longe, a estrada fazia um cotovello para a esquerda, e bruscamente o olival desapparecia. Então a viuva voltou-se muito, chorosa, inda viu Zarco immovel no meio da estrada, disse-lhe adeus com o lenço. Depois tudo se foi com as arvores que se interpunham, a estrada, o muro da horta, os olivaes, a aldeia. Ficou a desembrulhar o pacote que elle lhe déra.
—Que chinellinha mais rica! disse uma das velhas bispando o que continha o embrulho. Ere o sapato de velludo bordado a oiro, que ella, a tal noite...
—Cabeça a minha! Quiz trazer sapatos largos para o caminho, e afinal só vem um, que para mais me não serve.