A outra velha acudiu com admiração:
—Nem eu sei de pé, que possa caber n'uma chinellita d'estas.
E a viuva com um rir doloroso:
—Cabiam os meus, no tempo em que eram leves a ponto de atravessarem jardins sem pousar no chão.
—Ora! isso é o tal conto de fadas, disse a mais pequena das velhas.
—É verdade, um conto de fadas, tornou a viuva. Mas aconteceu!—E os seus olhos iam na direcção do olival.[(Voltar ao Conteúdo)]
A PROVINCIA
Á meia noite, depois de ter abraçado os amigos no Martinho, com uma ternura de adeuzes que o caracter blasé de quasi todos tornára, valha a verdade, intempestiva, Jorge Miguel tomou vagarosamente o caminho habitual da sua casa, scismando em que era esse o seu ultimo «fóra de horas» de Lisboa. Morava ao Monte havia nove annos, no pincaro do outeiro mesmo, sobranceiro á cidade, ao pé da ermida—n'uma casinhola de pobres cujo primeiro andar o novo senhorio repartira entre elle e um empregadorio velho do Museu.
Alli, com os seus livros, sem creado, varrendo a casa elle mesmo, com pares de calças por cima de todas as cadeiras e cartapacios n'um tumulto de rumas pelo chão, Jorge Miguel fazia uma vida concentrada de alchimista, silenciosa, de porta fechada ás visitas e cerebralidade muda ás expansões.
A cidade, que o conhecia n'um fumo de lenda um pouco feita através das suas blagues, afizera-se a lhe consentir em publico um eu á parte, explicando por maluquice a concentração solitaria dos seus giros, e mesmo por bebedeira as apoplexias de humor que a certas horas convertiam a sua apathia triste em improvisação epileptica, archi-estouvada.