—Resta vêr agora, objectára-lhe a esposa sorrindo, se cumprirá escrupulosamente o que promettes. Esta vida contemplativa estava-te a inutilisar todos os dias, e chamado á acção não terás tempo de te aborrecer a pensar futilidades. De mais o caminho é extenso, e estou a vêr que quando te habituares a fazer co'a terra, dinheiro, serás naturalmente conduzido a tambem aproveitar como bens de fortuna essa notoriedade de escriptor de que não tens querido tirar senão vaidades espirituaes, ephemeras e... irritantes.
—Tu não me aconselhas de certo que eu entre a escrever sobre a politica do districto...
—Em que estaria o mal? Não ha assumptos chalros. Um talento nobre transfigura todas as cousas porque passa. Ouço-te flagelar a estupidez e a má fé dos que açambarcam despoticamente, e para fins deshonestos, a politica da nossa região; porque te não decidirás, pois, a intervir n'ella com os recursos superiores que Deus te deu, e os teus estudos teem desenvolvido? Maldizer é facil. Quem se não mostra, esquece, e eis-te chegado á idade de reappareceres homem de acção.
—Tens-me então estado a sonhar governador civil ou deputado...
—Não pelo desforço platonico de assumires sob essa forma a authoridade, mas principalmente porque estaria n'isso o começo de uma fortuna decisiva.
—Em dinheiro talvez?
—Que a final é tudo n'este mundo. Se Jesus Christo voltasse a fazer na terra os doze apostolos, precisaria de pelo menos ter doze milhões. Olha á roda de ti o que se passa. Não ha mediocre que te não tenha suplantado; tu desesperas-te, fingindo desprezal-os, mas no fundo da tua consciencia o sentimento dominante é o ciume porque esses que tu declaras cerebralmente inferiores desenvolveram na vida qualidades de lucta que te faltam.
—Suppões então que eu não segui o caminho d'elles por impotencia...
—A que chamavas altivez, e afinal não foi mais que cobardia.
—Entristeces-me com esse juizo estreito que me fazes.