—Mas prova-me o contrario. Era tão facil! Ha na cidade um jornal sem redactor; offerecem-t'o e tu não respondes; ora se desenvolvesses n'um sentido sagaz as tuas qualidades de foliculario, em pouco tempe esse jornal seria a tua arma envenenada, e verias realisadas todas as tuas antigas ambições.
—Mas se eu não tenho nenhumas, minha filha!
—Ambições precisas não tens, porque a multidão assusta-te, mas quererás tu persuadir-me de que a tua obra critica de solteiro apenas fosse uma galopada de humorista? É lêr os teus pamphletos. Se se trata de litteratura, achas a obra dos outros má, e tens o cuidado de fixar um sonho de obra que não é mais do que a tua, idealisada. Se se trata de costumes, flagellas os vicios de que não gostas, e calas-te ou defendes aquelles para que tens uma certa vocação. Em politica achas todos os ministros imbecis, dizes que as nomeações não visam nunca individuos de valor, e que os dinheiros do paiz andam a rodo pelos regabofes dos seus administradores. Dir-me-has o que é tudo isto senão um processo ingenuo de, desbastando nos outros, ficares sendo primeiro e unico de pé?
—Mas afinal tu és uma creatura incongruente. Essa obra desenvolta de mocidade nunca te inspirou senão o enfado de uma cousa grosseira, mau grado os teus disfarces, e tanto fizeste que acabei por me envergonhar de a ter escripto. Passam seis annos, está mumifeita, esquecida, e és tu mesma que m'a vens galvanisar agora n'uma phase de empregomania que eu detesto!
—O caso é simples. Todo o homem que esgrime sem alvo, é caricato ou doido. Os teus proprios discipulos perguntavam: mas que quer elle? porque ninguem comprehende que se gaste energia sem proveito. Dez annos d'essa campanha asperrima, n'uma agua-furtada, sem roupa nem confortos, coberto de calumnias e de dividas, desprezado, odiado, o que te deram? A gloria de seres conhecido entre os estudantes como um canalha sarcastico, e quarenta adeptos que apenas servidos desertaram de ti como da peste.
A logica d'estas combinações chocava fundo os quarenta annos já frios do antigo pamphletario, que hesitava, no entanto obsecado da tradição dos genios famintos. Embuido das doutrinas utilitarias da esposa, via effectivamente o dinheiro como uma causa geral de toda a culminencia, e as suas antigas ambições gososas de grande homem despertando da indefinida madorna em que o estagnára a vida provincial. Via-se reapparecer de novo em plena vida, com outros ideaes mais largos e mais firmes, senhor da sua razão e da sua força, já sem os platonismos de artista e as nebulosas philosophias de pamphletario demolidor joeirado das antigas relações compromettedoras de café, homem de acção, batido no desprezo, monosyllabico, hypocrita, insolente, fazendo a sua entrada sem ruido, sondando os typos, avaliando a frio os consagrados, e n'uma reviravolta leonina, de repente, apoderando-se dos cimos, e fazendo-se sagrar chefe de clan. Tudo estaria em fazer do seu talento o molosso incorruptivel de uma ideia fixa. Essa marmorisação de vontade, porém, onde formal-a, com o seu caracter feminino e dominavel, acobardando-se diante dos obstaculos, e que a primeira mão resoluta guiaria a sabor dos seus caprichos? Então, lançando a vista de roda, apercebeu como sempre os olhos claros da mulher, interrogando-o com uma tristeza escarninha sobre a sua falta de coragem. A pretexto de inspecção ás escólas primarias, o governador civil percorria n'esse momento o districto, a sondar o espirito das terras sobre o exito das proximas eleições. Era um antigo companheiro de Jorge Miguel, sucio pomposo, que começára por gazetilhas obscenas no Pimpão, subindo d'ahi a amanuense da Junta, e redactor politico da Nova, jornal do presidente do conselho, que o despachou depois aos bejenses com subscriptos de funccionario de confiança.
Jorge Miguel inspirára-lhe sempre mesmo nos dias de convivencia litterária no Martinho, uma especie de rancor desconfiado, com orlas de desprezo, e póde-se imaginar a surpreza do conselheiro, quando, avistados na aldeia os dois bohemios, Jorge Miguel lhe communicou as suas tenções de comprar o jornal e entrar de vez na politica militante. Sentindo-se de cima o governador civil prometteu com uma sublime benevolencia, apoiar-lhe as pretensões, combinando-se depois de tres dias de hospedagem e de jantares pantagruelicos, que adquirida a gazeta, com typografia e pessoal conveniente, Jorge Miguel fosse a Lisboa munido de cartas prestar ao ministério vassallagem, e receber dos magnates do partido a sua iniciativa de cavalleiro. Quinze dias depois ia na casa do nosso pacifico contemplador uma barafunda dos demonios.
Pelo caminho de ferro chegaram de Lisboa umas poucas de charruas, caixotes de adubos e sementes, milheiros e milheiros de bacellos americanos. A adega foi quasi toda guarnecida de toneis; lagariças novas no pateo, com toda a sorte de machinas modernas. Os pousios das herdades eram começados a revolver a talho fundo, para o que foi necessario alugar juntas de bois a todo o preço; de fóra viera um regente agricola, de monoculo, que se levantava ao meio dia, e achava mau passadio um jantar de cinco pratos; e finalmente, negociado por quinhentos mil reis, typographia e tudo, o jornal apparecera depois onerado por uma hypotheca de dois contos, e com o typo delido, os prélos n'um cangalho, tendo Jorge Miguel de dispender, por conselho do governador civil, proprietario secreto da folha, mais de novecentos mil réis para acquisição de material. Na aldeia, quando estas coisas correram, foi o alvoroço que se tem por um individuo que emaluquece, de rodilhão, e todos punham as mãos na cabeça, antegozando com lastimas hypocritas a hora opipara em que rebentaria a casa do «escriptor». A audacia d'esta renovação agricola pelos risiveis processos scientificos, que nenhum rico ousára, e de que ria o povinho como uma brincadeira de creanças, além de não parecer condizente á remediada fortuna do litterato, tão pouco pelo estapafurdio do regente agricola, e resultado incerto das colheitas parecia estribar-se lá muito na económica prudencia que deve sempre guiar um lavrador. Viticultura americana? dinheiro perdido, bufavam todos. O phylloxera immobilisando-se no Douro perdera a força para chegar aos valles do Tejo. Reengorgitação das terras pelo adubo? mas onde ia isso parar de dispendioso, e para que necessario? se a vinha nunca se estrumára no Alemtejo, e quanto ao cereal, a bósta dos animaes abundou sempre, para fazer de alqueires, moios.
A reapparição do Clamor de Beja, jornal independente, um typo novo, e uma factura litteraria elegantissima, foi verdadeiramente um caso nos annaes da sornice alemtejana, e claro se viu o influxo que essa incisiva folha fumegante de vida e tocando os assumptos locaes com lúcida ironia, certo viria a ter na politica do sul da grande provincia.
Jorge Miguel recebia em casa os jornaes da redacção, preparava o seu artigo, fazia o noticiario e a correspondencia de Lisboa, e o resto era arranjado em Beja por um alferes do 17, seu antigo commensal n'uma republica de estudantes. Em pouco tempo o successo attingiu pela provincia as proporções de uma victoria; choviam as assignaturas, os annuncios pagos succediam-se, e em todas as questões locaes e partidarias começou o jornal a fazer authoridade, o que o lembrou em Lisboa, levando as attenções dos malignos para a espécie de furor com que Jorge Miguel, jacobino medonho, ainda na vespera, defendia os actos do governo. Eleições á porta: era o momento de ir a Lisboa, jurar fidelidade ao gabinete. Atochado de missivas bejenses para os magnates graúdos do partido, sahiu Jorge Miguel de casa uma manhã, com o seu chapéo alto e o seu bahú de roupa, disposto a levar de vencida as agruras da jornada graças a certa gallinha de recheio, mais meio presunto que a mulher lhe embrulhou, para farnel, na folha de um dos seus antigos pamphletos anarchistas. A viagem foi cabeceada de somno n'uma segunda classe onde voltavam de férias tres alarves de tres seminaristas, e só no Barreiro, quando a cidade começou a surgir vaporisada nos azues violetas do horizonte, é que Jorge Miguel sentiu tomal-o uma infinita e estranha nostalgia. Indo no barco atirou ao rio os restos do presunto, para evitar o cheravisco aduaneiro, e com o gallego do bahú veio a dar fundo nas Duas Nações, ante uma canja que tinha todo o ar de um soluto de caspa em agua de lavagens. Sopeteou como poude as vitellas flacidas com cenouras, um roast-beef de folha, e varios outros acepipes corneos d'aquella conceituada casa alimenticia, e barbeado, de sobrecasaca fina, cheirando a agua de Colonia, eil-o baixa do hotel á cóca de tipoia que o solavanque a S. Vicente. Chegado á rua, os luzeiros da Baixa estontearam-n'o: via, extasiado, uma multidão febril, pelos passeios, os carros cheios de gente, e o indefinido rumor repercutíndo-se a distancia, entre pregões de jornaes e silvos de comboyos. Mentalmente, com esforços de memoria dolorosos, desemburrando-se da bisonheria de seis annos de vida marital, tomava outra vez posse da cidade, buscando familiarisar-se no dedalo das ruas, achar no asphalto outra vez o seu rail de flaneur nocturno; e mulheres que surgiam de chapa nos reverberos das lojas pintadas de branco, olhando os homens de lado, como as gansas, tinham para elle o ar de apparições; nos americanos pareceu-lhe tudo duques e duquezas, um deslumbramento as lojas, os caixeiros uns personagens ideais; e a sua emoção subia n'um galopar de antigas reminiscencias, á mercê das surprezas esgarçadas por qualquer cousa, na volta de uma esquina, ante o estylo de um predio novo, um novo monumento—emoção de provinciano fóra da moda, cego do gaz, picado de ciumes, desesperado de já ninguem o conhecer, e que ao apear-se em Santa Clara, á porta do «nosso glorioso chefe» levava já tres ridiculos de aldeia a chateal-o: a fadiga dos calos, o remorso do casamento, e pairando a tudo, um desejo frascario, exhaustinado, d'ir rebentar a noitada ao baile de mascaras do Trindade. Seis annos de provincia tinham liquidado n'isto o grande homem...[(Voltar ao Conteúdo)]