—O doutor vae substitui-lo, sim?

—E a condessa assim me desterra tão cruelmente!—Ella estendeu-me a mão dizendo:

—Será por pouco tempo.—Fui. Esther não viera ainda. As senhoras começavam a chegar em pequena gala, com bournous de casimira branca forrados a setim e pelles. Eram os convivas certos d'aquellas pequeninas soirées, tão intimas, tão aconchegadas e tão doces, que os ditos e excentricidades da condessinha animavam, e a rabeca de Zebedeu Kebler, israelita loiro como Jesus e tão casto como elle, enchia de fremitos extranhos e infinitas harmonias. Kebler adorava a condessinha com uma paixão supersticiosa e ardente. Estava sempre onde ella estava; em São Carlos, a sua cadeira era defronte da friza d'ella; apparecia nos bailes a que ella ia, melancholico e pallido, uma elegancia fina de gentleman; e nas conversações mais frivolas, em podendo, mettia, sem quasi dar por isso, o nome d'ella. Esther era trigueira e alta, de uma distincção unica e de uma elegancia sem rival. O esmalte dos seus dentes destacava fresquissimo no vermelho das gengivas, como um adereço rico num estojo de velludo cereja. Nada mais explendido que a linha do seu busto nervoso e cinzelado, e a redondeza das suas espaduas reaes, surgindo de espumas de renda na fervilhação opulenta dos bailes. Fui ter com o judeu. De pé, junto da banca de jogo, elle olhava sem vêr cousa alguma. Tomei-lhe o braço e fomos para o vão d' uma janella. E antes que eu fallasse, elle disse:

—Já penetrei no mysterio.

—Qual?

—O da condessinha.

—Vamos a vêr como.

—Ella é muito supersticiosa. Não admira, sangue judeu...

—Sangue judeu! Ella?—Kebler baixou a voz e contou-me:

—Que certo vendedor de tamaras, freguez assiduo de uma hortaliceira, chegára a amar esta. Do amor dos dois, fermentou um garoto que se metteu cambista, d'onde mais tarde surgiu uma obesidade millionaria que um governo individado fez barão e par.