—De certo, de certo. Tanto mais que V. Ex.a tira effeitos poeticos da doença que diz soffrer, confesse.

—Ahi vem a sua má lingua, doutor. Na minha edade a poesia é o amor dos filhos. Eu sofro muito, sofro, palavra d'honra. E se fosse um aneurisma, meu Deus!...

—Ahi, está V. Ex.a poetando com hypotheses de martyrio, simples achaques a que todos estamos sugeitos. Que diria então eu, que V. Ex.a vê na flôr da vida e na apparencia da mais radiosa saude? O meu estomago!

—E o meu, doutor, o meu?

—A condessinha Esther tem a paixão das begonias; a sr.a duqueza de Serpa adora os cães d'agua; a sr.a marqueza de Valle de Perdizes esculpe; a esposa do negociante Domingues trabalha em créches e premios de escolas. E cada uma faz d'estas predilecções a sua aureola de poesia, de que se circunda no mundo. V. Ex.a tem os seus soffrimentos. É uma compensação.

—Já vejo que está hoje peor, Conde! gritou ella para a meza do jogo onde quatro homens faziam whist, á luz d'uma serpentina. Um velho calvo e magro severamente abotoado e de bigodes altivos, ergueu-se respeitosamente e veiu junto de nós.

Por detraz dos oculos, luziam-lhe aguçadas as pupillas de miope: andava com ares magestosos de ministro, gesticulando sobriamente.

—Que é? disse elle firmando as mãos nos gomos do divan da condessa mãe.

—Pode fallar-me da sua pre-historia, porque o meu amigo doutor teima em satyrisar os meus padecimentos. Vamos, sente-se aqui.

—Mas a partida...