—Fallando claro, o teu sermão quer dizer: amiga-te com o senhor marquez, rapariga. Não é isto? Por sua morte, talvez sejas rica; em vida d'elle por força has-de ser feliz.
Ezequiel não retrucou, mas poz-se a contar historias de raptos, vergonhosos amores, coisas cynicas e patuscas, sem apparente colligação de sentido. A voz fizera-se-lhe surda, d'uma firmeza espaçada que lhe espargia na face aspectos graves de prégador e de magistrado. E recapitulou da prédica, pitadeando, que a vida era um quotidiano mercado onde a gente adquiria o que por acaso tivesse de sobrecellente. Manoel Antonio Ferro, sahira da aldeia com elle, Ezequiel, em 40, com tres pintos no bolso, e o saquito da roupa branca. Entrado marçano n'uma loja do Porto, roubou o dono: primeira façanha, vá vendo... Foi ao Brasil mercandejar nos escravos, volta millionario. Chegado a Lisboa n'um estadão de principe, recommendado até aos olhos, nenhuma casa se abriu para o receber. Trazia na consciencia duas mortes, ao que se contava, e uns poucos de processos por contrabando e moeda falsa. O homem não se ralou muito co'a recepção dos patricios. Fez tranquillamente um palacio na Junqueira, talhou jardins, comprou herdades, derribou azinheiras, plantou vinha, fez eleições: e um bello dia, quando já entrava a ser necessario, deu doze contos para escolas, reclamando farda de moço fidalgo, pelos Ferros de Santo Thyrso, que eram ladrões d'estrada e sapateiros. Toda a gente entrou a chamar-lhe venerando, desde os doze contos. Hoje, ninguem funda um banco sem o nomear director, e não se inaugura uma escóla sem elle lá ir botar discurso, com os seus ares de pai-avô. Está par, está conde; e se ainda não põe na cabeça a corôa real, é que já tem uma de cornos, mimo da mulher, a sogra d'este Marquez das Flôres que ahi está de visita. A duqueza de Montes, menina Luiza, hoje velha, e tão virtuosa senhora, que manda rosarios da Terra Santa a noss'ama... era uma dançarina do primeiro café-concerto que se fundou em Lisboa, cheia de molestias. Depois da dança, vinha p'ras mesas embebedar-se com genebra, sentada no collo de quem lhe desse dois pintos. Eh! Eh! Tudo se vende e se compra: caras geitosas, virgindades velhas e novas, familia, patria, salvação, condecorações, reputações, sapatos d'ourello e garrafas de vinho. Quer um bom camarote no reino dos céos, menina Luiza? Dê quatro contos ao papa: manda-lhe a chave na volta do correio. Faz-se de côres? Ora adeus! Não digo que seja dos Evangelhos, esta doutrina. Mas é o resumo de cincoenta annos de trambulhões e miserias. Seja-me rica! A primeira felicidade é ter que vender. Mas a unica, a verdadeira, é poder comprar.
—Ezequiel, vossê tem a alma ruim.
—Por lhe confessar que só os imbecis se portam bem? Por lhe dizer que este mundo é dos descarados? Ai, se eu tivesse podido convencer-me d'estas coisas na sua idade! Não traria agora senão a libré de mim proprio, e o mundo havia de fazer o que me viesse á cabeça. Faça o que quizer, menina Luiza. Mas esta fabula é clara como agua. O senhor marquez gosta de si. Qualquer dia a senhora marqueza, trrr... foi-se. Que ha de fazer a Luizinha? Estará resolvida a dar-se por mulher ao primeiro labrego que venha? Mas creatura! Voltar para os casebres da sua madrasta, d'onde fugiu a honra com medo aos piôlhos? Brada aos céos! Viver pura como a luz, uma vida escura como a noite? Olha a tolice! Despir trajos de senhora, deixar este palacio e os confortos da vida farta, a que se afez desde pequena?.. Bau! Bau! não tem coragem. Isso sim! Vá, tane as mãosinhas em trabalhos que humilham e não salvam da pobreza e da fome. Hum! Hum! menina Luiza. Esses olhos não mentem no que deixam adivinhar. Venda, venda! O senhor marquez gosta de si.
As lagrimas saltavam já dos olhos de Luiza.
—É mais facil morrer, disse ella.
—Pois minha rica, não será rondando o Ruy noite e dia, mais de noite que de dia, que a menina ha de ir á cova de capella e palmito. Gostar do filho, tem todos os inconvenientes de gostar do pai, menos as vantagens. Esse pequeno é um cabeça louca; póde fazer apetite ao femeaço—o que não faz com certeza é uma bizarria que a deixe independente a si. Porque não póde! Porque não tem! D'ahi, tarefa inutil perseguil-o. O fedelho por ora não larga os amiguinhos do collegio. A menina não tem fortuna, parece-me ambiciosa... Venda. O seu genero está na alta. Dezoito annos. Uma lindeza! Venda. Bocca de morango, voz de seraphim... Venda, venda. O senhor marquez gosta de si.
Era o tempo das florações e dos ninhos. Divinas juventudes explodiam d'amor nas seivas da terra, na luz e nos perfumes do ar. O céo dôce, todo o campo uma distillaria d'essencias: lá baixo, na aldeia, as romarias começavam, e os casamentos tambem. Luiza guardava silencio, co'os olhos longe, vendo subir a manhã pelo cantar dos passaros. Comprar e vender. Vender e comprar. Uma carinha bonita, um corpinho perfeito. O senhor marquez gosta de si.—E Luiza chorou todo o santo dia.
N'essa cabeça de fogo entretanto, surgia cada vez mais fascinadora, a imagem de Ruy, toda abrasada d'estranhos prestigios: e diante d'ella ardendo sempre o lampadario d'um culto cego e inexoravel. Com o pequeno tinham vindo á quinta passar as férias da Paschoa, tres ou quatro dos seus companheiros mais intimos—Palhalvo, já gordo aos quinze annos, cujas bochechas tinham o geito d'estarem soprando uma desconforme trombeta, á semelhança d'esses anjos papudos que fazem apotheose ao calix mystico, nos frontões das capellas-móres—Mattoso, filho d'um criado velho, que a senhora marqueza destinava ao sacerdocio, e dominava o grupo com os seus modos severos de preceptor—Jorge Forjaz, primo d'Albertina, era o litterato, e recitava Rodrigues Cordeiro e Palmeirim nos banhos da Nazareth e Praia da Vieira—emfim Biscaya, especie d'aranhiço adunco, côr de feno, sempre tossindo, era um engeitado que o marquez recolhera e mandára ensinar, e cuja maldade e azedume transpareciam já nos seus dichotes de gaiato. Esta ronda de meninos bonitos, uns mais precoces do que outros, alvoroçava o palacio logo ao romper da manhã, extravasando nos pateos em exercicios de força e gymnastica, furtando beijos ás moças por onde quer que as topasse, partindo n'uma algazarra, em carretas de lavoira, para as searas onde mondassem raparigas, ou organisando correrias, d'onde os cavallos voltavam desferrados e cobertos d'espuma. Póde-se calcular o que estes diabos accrescentavam de desordem á volta dos festins do marquez: excepto Ruy, que ia ao almoço e jantar fazer companhia a sua mãi. Era a unica imposição tambem da boa senhora, ter o filho em toilette, defronte de si, nas refeições. E isto enchia d'importancia o pequeno, todo esforçado em infiltrar na melancolia austera da enferma, um raio da sua graça juvenil. Mesmo, o seu respeito por ella, timbrava em mimos, pieguices, ternuras, pequenas dedicações que a velha dama absorvia sem transluzir na face exangue emoção d'especie alguma.
Desde que Ruy chegára á quinta, a marqueza dispensava Luiza de lhe lêr as orações e velhos livros de pastoraes, villancicos ou novenas aos santos patronos mais dilectos. Era então Ruy o encarregado de lhe percorrer as passagens estimadas. Elle a tudo se prestava, com um tocante respeito de pagem amoroso, tentando seguir nos olhos d'ella o grau de satisfação que promovia, e evitando as crises com uma ligeireza d'alma adoravel e compadecida. Immovel por traz da cadeira da marqueza, Luiza servia-os, interpondo a enferma como medianeira innocente, no jogo galante em que ella buscava encasular a adolescencia do rapaz. Alguma vez este lhe dirigia a palavra, a buscar apoio n'uma asserção, a preferir o conselho de Luiza no tocante a qualquer pormenor de solicitude para com a mãi. E a alegria da pobre creatura, quando elle erguia aos olhos d'ella, os seus olhos picados de scentelhas leaes! N'essa alma de collegial, toda escrupulosa no froufrou da sua alvinitente plumagem, parece, nenhuma idéa de mulher passára ainda. E Luiza interrogava-se, sofreava-se, confusa, estonteada, aterrada das suas audacias, e sem coragem de revolver co'a sombra d'uma coquetterie, o lago azul d'aquella pureza celeste.