Uma manhã, cedo ainda, Luiza ia acordar Ruy para um almoço na horta, antes da caçada, quando se deteve á porta do quarto, sentindo rir e cochichar por entre as cortinas do leito. Talvez que Palhalvo, madrugador, a tivesse antecedido. Uma avidez de saber espicaçava-a entretanto. Pé ante pé, esgueirou-se por entre os batentes da porta, franzindo pouco o reposteiro, para se ir acocorar, sutilosa, por traz do grande biombo de coiro que resguardava a entrada. Era um dialogo abafado, d'um tom unido, e com palavras expirantes que ás vezes se perdiam entre murmurios de suspiros e beijos. Luiza avançou traiçoeiramente a cabecita de vibora para fóra do esconderijo. E os seus olhos estavam como uma interrogação rancorosa, através das phantasticas elegancias d'essa camara, que nos seus mais pequenos detalhes evocava em estatua a organisação desconnexa, fruste, mysteriosa, desigual, que lá vivia. Bem podia a estranheza da installação ser tomada em amostra de faculdades singulares. D'aquellas fórmas erraticas e symphonicas de côres amortecidas, via Luiza exhalar-se, sob um dia novo, a alma exotica a que ellas serviam d'involucro. As paredes eram forradas de velludo sombrio, já desbotado nos sitios do sol, e com pinturinhas vaporosas de figuras e flôres. Sombrios tapetes, quasi uma relva, amorteciam a bulha dos passos, até aos degraus do immenso leito toucado d'escuro, á laia d'eça, e com cercaduras á moda das da armação mural. Uma quantidade de moveis singulares: credencias d'ébano sobre ligeiros pés, trabalhadas como uma renda preciosa de volutas, entre ferrarias de prata batida a martello; nudezas d'estatuas aos cantos, brancas d'insomnia no rasgo genial das suas attitudes, servindo de cabide a chapéos de mil formatos: grandes jarrões sobre cubos esculpidos, em cujas arestas noctiluziam douradas vagas de pregos: e mesas carregadas d'estatuetas, marfins, velhas miniaturas, bocetas esculptadas: espelhos de metal, tenebrosos, por cima dos canapés, fazendo surgir da sua agua verde, esqualidos phantasmas d'enforcados: roupões de grandes desenhos na espalda dos tamboretes: e defronte do leito, um enorme divan com os cochins em desordem, alguns atirados, e livros por cima, cujas folhas os galgos iam passando entre as patas, por distrahir-se, nos intervallos da somneca. De cada um d'esses pormenores, um braço sahia e apontava um capricho, escaninhos velados de religião instinctiva, qualquer coisa de cavalheiroso em que palpitava uma raça, ou se iam espreguiçando as passivas mollezas da anemia hereditaria. Lentamente, os olhos de Luiza afizeram-se a divagar por toda aquella confusa penumbra. Pela direita, acima do genuflexorio, n'uma especie de tryptico negro, havia um quadro: era estranho: duas mãos brotavam da carbonosa noite do fundo, implorativas, mãos d'asceta devorado pela tentação: uma cabeça funebre movia-se nas sombras d'um capuz, insistindo em affirmar o quer que fosse d'asperrimo—se a lampada gothica de tres bicos, cahida do tecto, oscillava, no tom mortiço que as luzes têm de dia, mesmo ás escuras. Aquillo parecia um templo, sob a agonia terrivel da lampada. Mas já lambendo o muro, o clarão d'ella fazia valer tropheus d'armas, radiando d'estapafurdias panoplias: a mitra d'um bispo, cravejada de joias, um parasol de coiro arrancado ás escavações d'um templo romano, em Evora, peitoraes d'uma antiga cota sarracena... E dir-se-hia uma sala d'armas então. Porém do outro lado, a luz ia aclarar perto do leito, um perfumador de cobre sobre tripé de bronze. Luiza reparou. Ligeiros fumos fugiam á tona da caçoila, espojando arômas de flôres de Takeoka, bolas de styrax, coiro da Russia, jasmins... E santo Deus! a narina farejava lupanar. De quando em quando, as cortinas do leito mexiam, e pelo ar respirado da peça, aquelles perfumes torpidos erravam, n'essa calentura das alcovas habitadas pela reminiscencia de muitos amores sobrepostos. Luiza sentia-se desfallecer, á idéa d'outra mulher antes d'ella, ter captivado o estudante. Mas que mulher? dizia a camareira emparvoecida. O nome d'ella? O feitio d'ella? Dentro do palacio, por mais que procurasse, não descobria uma rival. Sua irmã não era bella: e fatigada, arrastando saias de barra immunda... Na cozinha, as creadas, todas feias de perder os sentidos. Alguma creatura de fóra? Isso é que não! De noite, Luiza rondava os corredores: a galeria que abraçava exteriormente o quarto de Ruy, era Luiza que lhe fechava a grade de ferro, aberta sobre os jardins. E irresoluta, tinha um suor na raiz dos cabellos. Aquelle sonso! Aquelle vil!—A sua primeira gana tinha sido correr ao leito, afastar as cortinas, ir contar tudo á senhora. Mas um terror apoderára-se dos seus membros. Que medonha noite na sua alma, que singular e perfida violação do seu destino, quando ella visse com os seus olhos, palpasse com os seus dedos, o que já alcunhava de traição a uma fé que ninguem lhe havia ainda jurado! E lá dentro, n'aquelle infame ninho de volupias, sempre o murmurio de beijos e suspiros. Urgia emtanto chamal-o para o almoço. Já no pateo havia rumores de vozes e relinchos de cavallos. Luiza sahiu pé ante pé, para entrar outra vez com grande ruido de portas atiradas. Mas ainda ella não transpunha a área de resguardo marcada pelo biombo, Ruy sahiu do leito com impeto, muito pallido, vestido apenas d'uma camisa de sêda: e vindo a ella, volubilmente, abraçou-a a plenos braços, deu-lhe um beijo furioso na bocca, e de rodilhão pôl-a fóra, fechando a porta sem mais explicações. Foi n'aquelle idyllio triste a unica impressão feliz que ella sentira: e todo o dia, toda a noite, lhe sabia a bocca áquelle beijo de rapaz que lhe entrára na carne pela furia virulenta da lingua.
D'alli a pouco, os caçadores deixavam o pateo direito ao laranjal. Luiza chegou-se ao terraço a vêl-os partir. Era o resto. Alberto M., empurrava para a porta Marquez das Flôres, retardado em dizer madrigaes á camareira. Festejado Mattos ia bifurcado n'um burro, immovel como um bonzo por baixo d'um grande chapéo de esteira do Algarve, entre cabazes de provisões. Marquez de Selmes fôra o ultimo a transpôr a porta. Reparando em Luiza, gentilmente:
—Tira a cabeça do sol, não adoeças.
E mandou-lhe um beijo nos dedos. Então ella alongou a vista para além dos muros do pateo, viu Ruy pelo braço de Mattoso, conversando a passos vagarosos.
—Menina Luiza.
Era Ezequiel com uma caixa de marroquim.
—Da parte do senhor marquez.
Luiza abriu o cofre, na ingenua expansão de Margarida ao atacar a aria das joias, na scena do jardim.
—Joias, joias! e houve no orgulho d'ella, um romper do sol vertiginoso.
—Para começo, é do melhor, dizia Ezequiel. E Luiza tocava n'um bracelete ao acaso, com safiras e pequenas perolas d'agua duvidosa. Havia mais um afogador, seu par de brincos, outra pulseira... E a sua bocca sorria de pasmo, na sua cara enxovalhada de pejo.