—Vale quarenta libras, toda esta caganifancia, quarenta. O homem faz limpamente os seus negocios, dizia Ezequiel. Eh! Eh! ponha lá as pulseiras, menina Luiza:—abriu uma.—Que lindeza! Metteu-lh'a no braço. É para vêr como fica.

Luiza toda se arrepiava ao frio do metal na pelle trigueira do seu punho. Lembravam-lhe aquelles beijos na camara de Ruy, pela manhã. E fechou o cofre de repente, dizendo a Ezequiel que o tornasse a levar ao marquez. Com certeza houvera engano. Ella não podia aceitar presentes d'aquelles.

Então c'o gesto grave, Ezequiel:

—Nada, nada. Seu amo ficaria fulo, se visse as joias recambiadas.

Mas Luiza não o escutava, nem ouvia. De novo, o ciume lhe fizera derivar a attenção por outra corrente.

Oh, a mulher que estava com elle! Não poder ella agarral-a sem testemunhas! Não lhe poder tomar o nó da goela entre os pollegares furiosos; e desagregar-lh'o, e esmagar-lh'o fazendo-lhe espalmar a lingua para fóra da bocca, até á base toda sangrenta nas mordeduras da agonia! Via-o então apparecer d'entre as cortinas—como elle vinha, lesto, branco, em sobresaltos!—na sua esguia camisa de sêda, vermelha e longa, muito franzida á volta do pescoço, e toda ella moldando a estatura elançada d'algum d'esses reisinhos loiros das phantasmagorias poeticas de Shakespeare. E o beijo que lhe déra, tão sapido de delicias inéditas, bocca a bocca, Luiza tinha-o sempre no fremito dos seus labios, e guardava-lhe o perfume no halito, como se o embalsamára uma pastilha de harem.

—Além de que, tenho fé que a menina vai d'aqui a pouco mudar de tenção. Olá se vai!

—Que está a rosnar, Ezequiel?

—Nada, nada. Aceitar, que quer dizer? É um presente: meu amo não pede nada por elle. D'ahi, seria a primeira vez... Eu cá recusei deitar-me co'a viuva, que era barbosa e medonha, mas sempre lhe fui recebendo bom relogio de oiro. Gente pobre põe de banda orgulhos tolos. É metter n'algibeira, menina Luiza. É de boa creação.

Luiza ficou cogitando. Joias tinha-as ella visto nos gavetões da marqueza, em grandes cofres de setim desbotado: estylos modernos, velhos estylos, todos os metaes, todos os esmaltes, pedras de todas as aguas e de todas as côres. O mal da pedraria, que faz cúpida a mulher do alto luxo, Luiza não podia soffrel-o ainda, no seu humilde papel de camareira. Vagamente ella entrevia a seducção d'aquellas faiscantes areias, que os romances acclamam como talisman de todas as concessões, sem todavia desconfiar que atmosphera mordente põem de roda á belleza, as fulgurantes pedras lapidadas. Ir contar tudo á senhora marqueza? Boa idéa. Luiza foi aos aposentos da enferma. Ahi lhe daria o ataque de nervos, desharmonia na casa, e talvez para ella o olho da rua... Muito embora! Entrou. Mas logo ao entrar ouviu tossir. A velha passára mal durante a noite, vomitos sêccos, uma ponta de febre, e a manhã passou-se n'isto. A marqueza não tinha querido erguer-se da cama, e ouviu missa mesmo deitada, pela porta entreaberta do oratorio. A cada momento, Luiza tinha que voltal-a, trazer-lhe um livro, executar uma ordem, aconchegar uma cortina, vêr o tempo. E só pelo meio dia pôde tirar um bocado para se ir vestir. O quarto d'ella era junto aos aposentos da senhora, com uma porta sobre o grande corredor que levava aos quartos de Ruy, não longe dos quaes demorava Ezequiel. E Luiza começou um toilette minucioso e cuidado. Ao canto fumegava o banho, em que ella entornára meio frasco d'agua flórida. E sobre a commoda, o cofre aberto, deixava vêr os presentes do marquez. Das gavetas saccou Luiza a roupa que precisava: uma camisa d'abertos, bem fina e trabalhada por ella, saias brancas—era um domingo—e d'uma gaveta pequena, o retrato de Ruy que poz á vista, sobre o pequeno movel de cabeceira. Já uma a uma, as saias d'ella iam cahindo, diante do espelho, com a friorenta graça, um pouco crispada, d'um faisão que se banha no regato, ruflando as plumas, depois de haver bebido. E ainda apoiando ao seio a camisa, que despira, espremeu d'alto, vagarosamente, sobre a tina, a esponja ensopada em agua tépida. Desnastrára os seus cabellos, que eram grandes, espiralados, bem fartos, reluzentes e negros, torcendo-os após sobre a nuca, n'um grande molho de serpentes, como nas estatuas classicas, os cabellos da Venus aphrodite. Espiralitas doidas, carrapitos finos, muitos frisados, soltavam-se-lhe do turbilhão de cabellos, por brinquedo, cocegando-a na pelle doirada do pescoço. Emfim a camisa cahiu; e era assim adoravel de nudez, triumphante de mocidade, cheia de revelações e surprezas virginaes. Quasi morena, a sua pelle vestia uma carne rija, symetrica, cantando sonatas perfidas de volupia, em que resoavam estribilhos de dentadas, gritos hystericos, spasmos e soluços d'insaciavel peccado. Mesmo, á volta da banheira, dirieis que as coisas abriam palpebras, e por entre as palpebras, olhos que a fitavam, furiosos de deboche, gritando infamias por centenas de boccas invisiveis. Ui! como a sua divina garganta, rapazes, parece crystallisar em bellezas inéditas, toda a luxuria em que as gerações têm urrado, sedentas da fórma, ha tantos seculos! Que bazar de tentações delirantes era o seu peito, que duas pétalas de rosa maculam, tão altas, tão iguaes, tão erecteis, que antes pareciam beicitos de criança, estendidos n'um momo candido para aceitarem o beijo d'um velho amigo da casa.—E mergulhou, espanejada, dilatada de prazer, cantarolando baixo uma cantiga. A espaços chapinhava a agua, immergia, tornava a cahir, amollecida n'um desejo, sonhando noites de nupcias com elle, sobre o leito de cortinas sombrias, onde as suas respirações se estrangulassem entre um murmurio de beijos e suspiros. O retrato de Ruy nem a fitava, receando a perscrutação impreterivel dos seus olhos, e o jugo d'aquelles braços, absorvente e pantanoso.