Uma hora no relogio do corredor.
Ainda agora Luiza não sabe explicar, como é que tendo jurado a si mesma, recambiaria o estojo ao marquez, se encontrou no fim do banho em frente ao espelho, núa como Cypris na areia de Cythéra, ensaiando o effeito do afogador e dos braceletes, na pelle rosada ainda dos attritos da esponja. Á medida que ia fixando sobre o espelho, tantos e tantos detalhes de perder a cabeça, passava no clarão dos seus olhos o mudo extasi de si propria, e a coriscação do oiro novo, nas flocosidades brunas da garganta e dos hombros. E comsigo mesmo acabou por achar razão a Ezequiel. Por fim de contas, aceitar que quer dizer? É um presente. O senhor marquez não pede nada em demasia da offerta. Virava a cabeça para vêr o luzeiro dos brincos, ageitava o colar, punha as pulseiras... Deliciosa, fascinadora, appetecivel! Se Ruy pudesse vêl-a a plena luz, assim despida, e sem a hypocrisia do mais ligeiro véo, talvez que elle sustasse de vez tantas repulsas—ai, talvez!—e viesse cahir-lhe aos pés absorvido na sua belleza immortal. Oh, como da esbelteza nervosa dos dois corpos, ventre a ventre, se evolaria o poema de mysteriosas caricias n'esse instante, rimado a beijos, labio a labio; esse divino poema, através de cujas estancias rola a batalha do gozo, e do calice de cujas imagens gotteja a tripla-essencia das mais celestes devassidões! Duas vezes ou tres desenrolára a camisa, esfregando-a da gomma entre as mãos sobresaltadas: e ainda por fim se adorava no espelho adulador, furiosa por dar-se, n'um paroxismo que ia até ao deslumbramento. De repente pareceu-lhe ouvir rumor no quarto proximo. Enfiou a camisa á pressa, atarantada; pé ante pé foi indo de mansinho até á porta, receosa, d'ouvido á escuta occultando a nudez por traz dos reposteiros. Não se enganára. Estava entreaberta a porta do corredor. Então lançou um chale pelos hombros, enfiou as chinellas á pressa, sem se atrever a perguntar quem andava lá. Mas deu um grito de susto, vendo Ezequiel diante d'ella, lívido de morte, tremulo e babado como um satyro decrepito.
Luiza apenas tivera tempo de acocorar-se a um canto da peça, buscando encobrir-se toda no chale, pallida de vergonha e gritando ao malandro que se fosse.
Porém este, apopletico, nem fallar podia, fulminado por aquella visão de mulher núa, e com o cuspo a espessar-se em grossos fios nos cantos da bocca.
—Aquelle ruivo, menina Luiza, tartamudeou elle por fim, rolando os olhos,—o que faz versos... Entregou-me este papel para vossemecê.
—Bem, bem, vá-se embora. Ande! Não ha maior atrevimento.
—Ouve, Luizinha, rica filha, eu já me vou. É uma coisa que eu trago aqui guardada. Des'que te vi. E tão núasinha, tão boa, Jesus do céo!
—D'aqui p'ra fóra! Já! Ou chamo gente.
—Os outros querem-te por uma vez, pai, filho, moços e velhos, anda tudo atraz de ti. É uma canalha, já t'o disse, é uma canalha. Até me propuzeram que te amordaçasse, uma noite, p'ra se refocilarem comtigo, aquelles ladrões.
A sua voz rastejava, o seu aspecto era terrivel.