—Sim, sim, tudo isso li.
—Hombre, exclamou ella com uma acerada ponta ironica. Es usted un portugués mui sabionado.
—Que quer! A lingua hespanhola tem para mim um prestigio e uma musica que me não canço d'ouvir e de gostar. É uma lingua de guerreiros e d'oradores, para hymnos e para suplicas, compativel com a expressão de todos os estados emotivos. Ella sorrindo, repetia o proloquio:
—Falla francez ao teu cozinheiro, inglez ao teu cavallo, alemão ao teu cão, e hespanhol á mulher que mais te agrade...
Tinhamos vindo ao cabo do jardim, e por uma porta de ferro chegamos a um grande trecho murado de floresta ou bosque, onde a vegetação deixada ao esbracejar liberrimo de vint'annos, apagava o torcicollo das ruas, emaranhando para todos os lados, labyrinthos de folhas e de ramas.
Aquillo lembrava o Paradou da Faute de Zola, com a noite glauca dos macissos, as lucarnas das cópas deixando feixes de luz zebrarem d'esmeraldas liquidas os fundos. Uma aluvião de melros silvava, uma guarda de honra de passaros respondia.
Era recolhido, intimo, profundo, e ouvia-se, não sei onde, um tenue telingar d'agua corrente. E eu lhe disse erguendo a vista áquella intensa ablução d'asas e folhas:
—Aqui se vive em plena natureza.
E ella tornou:
—Não. Aqui se morre em plena soledade.[(Voltar ao Conteúdo)]