Apesar do fanatismo pela diva, o publico esfriava, torcia-se na plateia com bocejos somnolentos, errando a vista pelos camarotes, com tossinhas de gato, errantes, communicativas, e esse leve rojar de pés, que perturba de morte os actores, e tem feito o de-profundis de muito drama e comedia. Contra inanição semelhante, era conhecido no palco o efficaz revulsivo. Dos bastidores, o emprezario mandava á dona Eulalia trouxesse o corpete depressa. A costureira vinha a correr com elle, emquanto o emprezario, baixinho, para dentro de scena:—sss... giralda!—Signal para a Velledo desertar de scena, mesmo cortando a situação, e fazendo falhar o pathetico do lance. E mesmo alli a grande artista mudava de trajo, envergando o famoso corpete azul, uma nudez como qualquer outra. Reduzia-se n'um cinto applicado a Bruxellas finas, e servindo nas occasiões desesperadas, desde que estava eminente o fiasco. Applicava-se no publico como um sedenho ou um caustico, no intuito de suppurar ovações. Apertada n'elle, a grande Velledo ficava pouco menos de núa, contando bem da cinta para cima. Corpete de fatal origem e luctuosa historia! Tinha-o inventado o octogenario marquez das Berlengas, um galante da sociedade do delirio, que pelos modos se enfeitava, quando certa madrugada nos braços d'ella se sentiu esfriar como burro morto. E indo a vestir-lh'o, mais animado e banzeiro, cahiu com o aneurisma rôto, em fralda de camisa, como estava, o desdichado!
Esse collete, justo atraz por um cordão de seda lasso e cruzado, recordava uma corbeille d'onde espumasse a radiosa floração da sua carne, musical e superabundante—e seios turgentes gottejando rubis das mamellas; braços torneados, á Clodion, desde o punho até aos hombros; garganta e espaduas resplendendo essa polida brancura que o frio marmore nunca dá, e vem talvez da circulação juvenil e do azul aponevrotico, coados por uma epiderme vibratil e sã.
E apenas ella entrava assim eloquente e vil, um rumor corria por toda a banda, e em ondas, sentia-se ir aquecendo a sala. Já das varandas vinham estalos de lingua, e a velhada ia esfregando uns contra os outros, febrilmente, os seus joelhos carcomidos. Gradual, a tempestade de bravos ia-se encapellando, agglomerando, contundindo. Havia no ambiente podre revoadas de sss... E a excitação, como uma cheia, afogava tudo, derrancando pela raiz os impulsos da bestialidade humana, e pondo á mostra a torpeza physica dos mais graves funccionários. Era então que se viam velhitos da mais austera prudencia, curvando em gestos macabros sobre os vizinhos—juizes, antigos ministros, conspicuos directores de banco, e chefes de secretaria—furiosos d'amor canino, e dando a sua opinião d'olho esgazeado. Ella, na scena, parecia uma bella estatua reanimada, tão nobres as linhas da sua anatomia esplendente. E quasi núa, corria-lhe na carne um arfar d'emoção radiosa. O pescoço era maravilhoso de finura; ria-lhe uma sensualidade no modelado do queixo; emquanto a narina n'um frémito, dir-se-hia seguir o rolar d'olhos reaes que ella pela sala deitava. Erguia o braço n'um movimento afadigado; e viam-se cabellitos na axilla, muito pretos. O arco das duas sobrancelhas, quebrado em accento circumflexo, exprimia maravilhosamente o desdem. E suspensa, a sala aguardava que ella fallasse.
—Senhor! Ousa insultar uma mulher que se não defende? Perigoso me tinham dito que era; cobarde nunca!...—e ao meio da scena, n'uma colera de deuza, a cauda em serpente, um dos seios espreitando a tourada de focinho sobre a orla do corpete, bramia a terrivel sacerdotisa:
—Saia!
Sublime! Sublime! era a palavra de toda a gente.
Precisamente n'este remoinho de celebridade e de gloria, depois da grande scena do terceiro acto, uma noite, Rogério declarou-se a Velledo, n'um portuguez que a actriz não usava escutar lá muitas vezes. Fôra n'um escaninho do palco, durante a mutação de scenario.
—Palavra, adora-me, o senhor? disse-lhe ella escarnecendo.—Elle compunha uma attitude fatal, como se quizesse magnetisal-a de paixão. E despiam-n'a, os seus olhos faiscantes de vicio.
—Dizer-m'o não basta, tornou a eminente actriz. É necessario que m'o prove.
—Mas como? disse elle surdamente.