—Isso não é commigo.

E depois d'uma pausa:

—Ha talvez um meio de principiar. Porque não começa a ter talento?

Rogério não respondeu, mas os seus olhos, como brasas, na pelle branca do colo d'ella, redondo e nú, chamuscavam-n'a, mordiam-n'a, apalpavam-n'a, servindo-a como um goso arrancado á força. E n'um desvairamento, agarrou-a pelos dois braços sifflando, engasgado de furia.

—Cala-te estupor, cala-te diabo!—Era n'uma sombra de panno de fundo, que vinham, de correr. E a Velledo debatia-se, aterrada do escandalo, cahida do respeito usual por semelhante violencia. Rogério tinha-a cingido pela cintura, e apertado contra o peito, nas agonias d'um toiro; e aos beijos por toda ella, na bocca, na garganta, nas espaduas, sobre o peito, percorria, babava-a, delirante, horrivel de desejo, deixando-lhe vermelhidões por toda a parte, signaes de dedos crispados, babugens de raiva lubrica, que no pó d'arroz deixavam listrões nojentos de vêr. Enxovalhada da brutalidade, a Velledo chorava, gaguejando:

—Infame! Infame!

Despenteara-se na lucta, tinha-se aberto o colar, um dos colibris da túnica cahira, violentamente roçado. Rogério ficára a resfolegar n'um canto. Mas ouviu-se o contra-regra chamar para a scena do jardim; e com a voz musical de quando estava elegre, a Velledo desatou a rir alto entre os bastidores. E mal o galã disse—é ella, conheço-a, o coração m'o diz!—entrou em scena radiante e magnifica, monologando para si:

Elle prometteu-me que viria. O seu amor é leal. Virá de certo—e n'uma expansão d'amor:—adoro-o, sim, adoro-o!...

—Has de cá cahir, cegonha! fez Rogério esfregando as mãos. E ao outro dia foi-lhe pagando as contas da modista. Mas já entravam a rosnar. Os ganymedes de palco, gentinha disposta a explorar, intrigar, levar e trazer segredinhos, bilhetinhos, cobriam Rogério de perguntas sobre a tristeza em que o viam, com subtis allusões á actriz. Nos camarins não se fallava n'outra coisa. Sabia-se que elle hypothecára as ultimas propriedades, perdia ao jogo, e mandava á Velledo todos os dias, uma grande corbeille de camelias e rosas confeccionada no Neves. De quando em quando, presentes de galantarias antigas que ella colleccionava com paixão, bibelots de Sèvres, pratos e netskés do Japão, aguarellas, bronzes e moveis delicados, pequenas peças vasculhadas nos adelos e casas de penhores, com paciencia de santo, regateadas durante horas, e muitas vezes adquiridas por preços escandalosos. Como amador de bric-à-brac, Rogério era uma besta, chegando a pagar por libras monos de loja de chá, fallidos de todo o merito. Velledo encolhia então desdenhosamente os hombros, mirando a bugiganga. E com irónica piedade:

—Decididamente tem o gosto caraíba. Vê-se logo que é da provincia. Foi do leite. Obrigado. Ou era uma fayança repetida, qualquer peça que ella pedia para lhe comprar, e Rogério já não encontrava no bazar indicado. A actriz impacientava-se então, fazia momo com o seu beicinho vermelho, batia o pé vendo-o chegar de mãos vasias.