—Se elle é um desastrado! Fosse quando eu lhe disse.
E predilecções de momento, ambições por quanto via nos armazens, e logo tédios pelo que ia adquirindo. Em dias de nervos quebrava, mordia e rasgava tudo para se vingar, na epilepsia dos que tendo feito das impressões violentas um habito abusivo, desesperam por fim, se acaso em vão apoz ellas correm. Tão raras as horas de bom humor, que Rogério, se alguma surprehendia, dir-se-hia gosal-a como recompensa disputada. Esse homem altivo cahia aos pés da sua gata sabia, em pieguices de collegial, deixando-se explorar por prazer. E sobre a posse tão ardentemente implorada, nem rastro d'esperança! Se ia beijal-a com mais furia, se a queria enlaçar pela cinta, ou a respiração cortada n'elle trahia alguma ideia occulta de deleite, ella logo de pé, faiscante e sarcastica, para o repellir com desprezo.
—Olhe que me não esqueci d'aquella canalhice do theatro, hein?—ou fazendo saltar o lorgnon Regencia:
—Ora filhinho! Deixa-te d'asneiras. Isto é do brasileiro.
Mezes passavam assim. Se por um lado Rogério não adeantava com a actriz, recebia por outro, do brasileiro, provas de deferencia e familiaridades em cada dia mais profusas. Tinham começado as relações por uma polidez reservada, que parecia occultar as mais cathegoricas antipathias. Dopois, aquella crosta d'indifferença estalára aqui e além, n'um cavaco mais vivo, n'um accordo ou outro d'acaso. Rogério sondava os gostos do brasileiro, lisongeava-lhe os ridiculos, punha-se ao lado das suas opiniões, aturava-lhe as estopadas, ou conseguia rir das graçolas d'elle. Era um pobre homem, limitado e benevolo esse brasileiro, que todo entretido a enriquecer-se, na mocidade, mal tivera tempo para gostar d'uma mulher—e assim conseguira embarcar na velhice, conservando intactas, pudicas quasi, as intimas juventudes do seu coração, uma singeleza timida e crédula, uma especie de convicção da sua inferioridade, como animal, em face daquella grande rainha da scena, e pequenas attenções balbuciantes para os caprichos d'ella, torturas soffridas sem revolta, e humilhações inda por cima agradecidas, n'uma effervescencia de lagrimas.
Esse mudo velho de olhar ardente e mãos de cavador, de continuo enluvadas, alto, negro, com uma barba branca de negreiro, e uma gravata de coleira á volta dos collarinhos molles, esse mudo velho, parecia marchar somnambulo na sua idéa fixa, dolorosamente algemado á sua paixão como a um cepo de patibulo, para toda a gente affavel, dizendo muito obrigado á creadagem, orgulhoso de ter em casa da Velledo o ar d'um intendente, desolando-se em suspiros que a edade já fazia grotescos, desdenhado, repellido, porém fincando sempre nas derrotas de cada dia, a coragem para insistir nos dias seguintes. Emquanto o pobre suspeitou que as denguices de Rogério viessem a ter resultado, foi sempre mantendo á vista d'elle, uma reserva polida, quasi fria. Os cumprimentos que trocavam, traziam, mesmo de longe, um asco a desconfiança. Os risos d'elles, ao toparem-se, no serão da tragica, eram um espremer de beiços seccos, com distillo d'amargura. Mas breve o nababo concluiu que não viria de Rogério o vento mau de desgraça, que lhe varresse a Velledo, como uma nau dos quintos, do mar banzeiro em que elle a trazia balanceada e repreza. Uma magua identica, parece, lentamente os conduzira a uma sorte de camaradagem. E vieram jantares, pequenos conselhos ditos na meia intimidade d'um segredo, favorsinhos que se calculam e estão prestes ao primeiro signal. Por fim deram o braço, trocaram brindes, começaram a sympathisar; e havia quatro mezes que o brasileiro já não passava sem Rogério, e Rogério se afizera a procurar todas as tardes o brasileiro. Velledo espiava aquelles manejos, deixava-os consolarem-se um no outro, e ia-os explorando systhematicamente. Era o tempo em que a fortuna de Rogério via o começo do fim, e Lisboa lhe ia notando as primeiras joelheiras, as luvas safadas e as golas russas. E os beiços d'elle enlivideciam, uma magreza patibular fazia-lhe duro o perfil; e enfastiado, mãos febris, não dava palava a ninguem. Em volta ao caso ria toda a gente. Apenas o grupo sério de Pirralho, philosopho Horacio, festejado Peres, e a ninhada de fedelhos positivo-publicistas, lia n'essa fronte sulcada, n'esse olhar fixo e interior, a gestação laboriosa d'algum grande livro. Actores, já o tratavam de resto, não o sentindo como outr'ora, generoso d'emprestimos, e tão prodigo d'alegres ceias no Gibraltar. A primeira vez que appareceu sem relogio, fumando cigarros de mendigo, quasi todos, achando-o pulha, lhe voltaram as costas.
Por esse tempo revelava-se Alcina, que passára da opera-buffa ao theatro de declamação, prima de Rogério e sua primeira amante. Fôra na Suzanna do Demi-Monde, papel de prova, cheio de movimento e finura, em que por confronto a Velledo tinha dado um estenderete medonho, e que Alcina fez com distincção surprehendente. Sobre o caso, a critica fez-se ouvir muito acerba contra a Velledo, mau grado as supplicas do brasileiro e de Rogério, a que fosse poupada a grande sacerdotisa. Em quasi toda a linha jornalistica, de repente, as hostilidades romperam com violencia brutal, bipartindo-se os criticos na hoste dos que bradavam—Velledo!—e na dos que punham Alcina na mais brilhante evidencia. A prima de Rogério, por conseguinte, passou a synthetisar a escóla nova, como a Velledo era a expressão da antiga arte. Pirralho e o magreirão Lindôso, macacos-pontifices da alta critica moderna, saudaram a musa nova em rutilos artigos crivados de referencias picaras á antiga primeira actriz portugueza, na qual tudo, segundo elles, era convencional. A historia do corpete fez escandalo de morrer a rir. E dois ou tres distinctos escriptores e nossos amigos estiolavam-se a calcular os annos que ella teria d'edade, o que esbanjava em cabellos postiços, e da composição chimica d'aquelles seios esculpturaes...
A actriz Alcina, não! Era a mocidade maleavel e viva, a intelligencia sagaz que tudo penetrava sem esforço, o genio desprezando artificios, e dando-se á plateia em relampagos—e como mulher, uma nympha de Clodion, elançada e viva.
—É necessario derribar os falsos deuses, escrevera Lindôso. A arte é constantemente evolucionista. Quem não progride, não a acompanha, e elimina-se pelo esquecimento ou pelo desprezo...
—Isso é forte, homem...