A casa de Rogério era perto, e em dez minutos faziam elles a sua entrada no escriptorio. Rogério fechou a porta da escada e metteu a chave na algibeira.

—Ah diabo! exclamou Lindôso com uma palmada na testa. De todo me esqueceu falar da tua peça. E que tinha planeado uma coisa magnifica! Artigo para o publico, está claro, coisa d'arrombar ahi tudo. Entre nós, franquezinha. Deves deixar o genero: o teu drama, aqui para nós, era quasi infantil.

Rogério, surpreso, nem falava. Que exhuberancia de malandro! pensava elle.

—Nem admira, continuou Lindôso. Tu, o que ha de mais moderno no estylo ligeiro, de mais elegante, de mais parisiense, cahes agora na monomania de fazer viver sobre a scena os assumptos historicos!? Primeiro, não és um erudito. Segundo, não tens a corda dramatica. E olha que influe alguma coisa, a gente não se chamar Walter Scott ou Shakespeare, menino.

—Sopra-te o vento d'outro lado, esta manhã, tornou o dramaturgo com os beiços brancos. Em todo o caso, ouve. Eu li o que escreveste sobre a Alcina...

—O artigo para amanhã é superior. Vaes vêr que maravilha d'analyse e graça humoristica. A sagacidade do Taine na fórma irisada do Wolff. Ah, meu caro Rogério, meu bem! Ponho a Velledo em picado. Dez annos de lucta, e regeneramos o theatro portuguez.

—Trazes o artigo?

—Vou lêr-t'o. Ficas assombrado.—Mas onde foi elle buscar este vigor de linguagem, este conhecimento do assumpto, esta chuva de sarcasmo e pedras preciosas? dirás tu. Ah, Rogério! Nasce-se.

Enfastiado, risonho, o dramaturgo fez-lhe signal para que lêsse. O artigo era uma catilinaria habil, gradual, bem deduzida, e feita com esse sarcasmo sereno, quasi limpido, de quem não receia lhe tomem contas. Definia a arte nova em termos firmes, historiava-lhe a evolução rapidamente, frisando-lhe os intuitos, explicando-lhe o destino e o nivel philosophico. Cahia em seguida sobre os actores, no tom desdenhoso de quem trata subalternos—e uma vez alli, tocava na Velledo. Desde esse instante, uma furia explosia no artigo, e as ironias eram um crivar de balas no corpo d'um fuzilado. Segundo elle, não era possivel mais tolerar sobre a nossa primeira scena, uma actriz cheia d'artificios e ronceiras manhas; cantando, se declamava; e não tendo mais a voz maleavel, nem vivaz o gesto, nem a pose esculpida na proporção da figura que reproduzia. Desmemoriada, envaidecida, tola, velha, quasi feia...

E no final, em palavras metallicas, enthusiasmadas, relampejando fundos d'apotheose, entrava a dizer que Alcina era o astro do dia novo na arte, subindo tocado de flammas, com a grandeza d'uma redempção pronunciada de ha muito, pela critica imparcial...