Os escriptores arrastavam figuras chupadas, de luneta, vastas cabelleiras polvilhadas de caspa, expectoração de discursos com gestos amplos e eloquencia estrondosa. Conhecia o bombeiro, o policia, o correio e o juiz de irmandade. E odiava quem vinha só para entrar na cova, os que embarcavam para o outro mundo sem deixar, na gare, alguns amigos da infancia, ou herdeiros capazes de guardar conveniencias. Ouvia n’esses momentos dizer ao pai:

—Sucia de vadios! quando tinha de abrir cova sem receber gorgeta.

E aprendera a dizer com elle esta phrase profunda:

—Até morrem pelo amor de Deus; cambada!...

Havendo enterro grande, punha uma garibaldi vermelha, azeite nos cabellos ruivos, sapatos de duraque preto, sem tacões e chatos como linguados. Toda risonha ajoelhava-se na passagem do prestito, movendo os labios como quem reza. Depois, na volta:

—Uma esmolinha por aquella alma de Deus!

E comprava pevides, amendoim torrado e alfeloa, á tia Palma, uma de capote verde, sem um olho, que vinha vender á porta n’um taboleiro velho, seccas golodices de arraial. O que a abalava era aquella vida na casa das observações. Olhava já sem terror os cadaveres, como se fossem pessoas adormecidas no mesmo quarto, cada qual na sua maca de estalagem. Os homens sobretudo. Alguns eram ainda novos, louros, pallidos e bem feitos; alguns ricos, tinham a pelle fina, de um contacto setinoso e bom.

Nas horas de calor, de verão, quando sob os cyprestes, os empregados do cemiterio dormiam, ia devagarinho sem ser presentida á casa dos depositos, escolhia os cadáveres dos moços, dos bellos, se os havia e como um pequeno vampiro sequioso entreabria as mortalhas, despregando com uma navalhinha as camisas; mettia a mão devagarinho, pelo peito, mettia, escorregando-a ao longo das carnes, beliscando-as levemente, com prazer; o olhar dilatava-se-lhe, havia na sua face uma mancha de excitação, mordia os labios exaltada; e palpando, estudando, comprehendendo e adivinhando, ficava absorta, um pouco curvada sobre os corpos, o halito ardente, uma palpitação larga e cheia de impeto. A sua imaginação rasgava as nevoas indecisas que diante da intelligente maldade, a sua inexperiencia despregava como uma mascara casta e limpida, cheia de placidez. Estas explorações fizeram-a muito cedo mulher, preparando-a a comprehender mysterios e umas meias phrases que ouvia aos gatos-pingados, se passavam por ella. Ás vezes, eram rapazes de quinze a vinte annos que jaziam.

Carolina em os vendo exaltava-se, todos os nervos se lhe distendiam na ancia d’um desejo que jámais formulára. D’uma vez tinha beijado sôfrega uma fronte, com balbuciações afflictas, ardendo em peccado, como uma alma de reprobo.

Não conhecera mãi, nunca uma boa mulher a beijara e o coveiro não reprimia diante da filha as suas expansões brutaes. Entregue a si propria, chamuscada por caricias perfidas de homens entregues á rota corrente da sua bestialidade, fizera-se n’isto. Havia no entanto dentro d’ella ainda, uma cousa ideal e inexplicavel, certa virgindade infantil: de noite rezava! Vinham-lhe tristezas intimas, a insomnia triturava-lhe por vezes a saude, como n’um almofariz de bronze. Sem saber porquê, era desgraçada. Desejaria ser como uma pequena que vira um dia costurando á porta fuma carvoaria, com uma rosa nas tranças. Mas de subito, alguma cousa a arremessava á lembrança condemnada dos homens adormecidos na casa de observação, e via-os surgir das suas mortalhas alinhavadas, sorrindo, com vida; estendiam os braços a procural-a; roídos de vermes, muitos vinham, como na dança do Roberto, roçar-lhe pelos quadris os membros esqualidos e podres.