Se lh’as gabavam, Martha retorquia:

—Ai! bom dinheiro custam, fregueza. Vem todas as manhãs de Odivellas, uma estopada que eu sei!...

E explicava que um cunhado, da quinta do snr. marquez de Borba, tinha seu vintem e um bocadinho de terra onde se faziam os bellos nabos e aquellas lombardas folhudas. Caro, tudo pelas ultimas, dizia pondo a sogra, os cordões a luzir no peito.

Carolina nasceu no dia da morte da mãi. Até alli, o coveiro vivera sem miserias, mas, morta a mulher, descobriu-se d’onde vinham as couves e ninguem mais lh’as comprou. Não se sabe como a pequena se creára, mas aos doze annos era bonita, franzininha, o nariz arrebitado, descalça e cheia de remendos.

E sem consciencia do que via, acompanhava o pai na sinistra occupação de sepultar os mortos. Assim crescera. N’aquella miseranda existencia entrára a crear predilecções. Começou a amar principalmente os mortos que paravam á porta do cemiterio em ricas berlindas douradas, entre filas de gatos pingados lugubres de tochas accesas, e puxados por seis parelhas cobertas de crepes. Visitava-os na casa da observação, acocorada a um canto com o olhar absorto, durante as vinte e quatro horas que os caixões alli passavam abertos, e onde contemplava, deitados na petrea immobilidade derradeira, os que na sua vaidade egoista, corruptos e miasmaticos, iam habitar em sepulchros de marmore, com figuras sentimentaes na fachada e pomposas inscripções nas lapides. Póde dizer-se que aprendeu a lêr no cemiterio, quando curiosa na sua pobreza esfrangalhada queria saber os nomes e posições occupadas no mundo pelos que habitavam aquella branca cidade de marmores, de que se julgava rainha.

Uma tarde, passeando na grande rua que corre ao longo da fachada do cemiterio tinha parado a contemplar, no alto d’um pedestal glorioso, a estatua do conde das Antas. E fallava ainda nos seus ultimos dias, d’aquella energica figura de soldado, grande barba sobre o peito e cabeça de um vigor leonino, a mão apertando o punho da espada... e desde então, a sua ancia pedia-lhe militares, que arrastam nas ruas os sabres prateados e destacam, na agitação dos enterros, d’entre os graves toilettes negros com a alegria embriagadora dos seus vivos rutilantes e das suas divisas sanguineas, côr dos desejos insaciaveis. Nos seus devaneios passavam pallidas figuras de alferes, dos que tilintam esporas no lagedo dos passeios e retorcem bigodes frisados, contemplando as janellas, em domingos de procissão. Todos os dias visitava a casa das observações: alli, sobre bancas expunham-se caixões abertos; ella mesma mettia nas mãos dos mortos as argolas de alarme, e tal emprego quotidiano permittia-lhe vêr gentes de todas as castas e profissões. Meninas ricas, filhas de millionarios e nascidas entre velludos, aureas meninices em berços de renda, acalentadas por amas normandas de cachos louros, iam alli dormindo nos seus caixões de setim, victimas de tisica galopante, olhos vitreos e face cavada, labios brancos em listras lividas e o gelado sorriso dos martyres, clareando em reflexos os rostos, de uma rigidez de esculptura.

Rapazes pobres, dos que ao clarão das forjas crestaram a vida, figuras seccas de famintos, torciam nos rostos expressões de soffrer infernal e gelavam-se na nudez miseranda da morte, ao lado de reverendos, com a barba bem feita, a batina nova e grave, quebrada em pregas symetricas, finas camisas de bretanha, tiras de folhos e sapatos de fivela, cingindo, á força de apertadas com uma fita, contra o peito, cruzes de marfim bento, symbolo d’uma fé que nunca os caracterisou na vida.

E os grandes devassos, os magros adulteros que nos foyers das operas e nos camarins das cantoras, nas casas de batota e nas alcovas faceis fazem publica a sua dissolução e deshonra, vinham tambem, diante da pequena, exhibir a ultima elegancia.

Carolina, pelo numero e aspecto dos convidados d’um enterro, chegára á perfeição de fixar a posição social de qualquer defunto.

Os conselheiros reuniam graves figuras circumspectas de velhotes de luva preta e grandes pés, folgados em botas macias. Os condes faziam-se acompanhar dos coches da casa real, riqueza oxydada e rota, em que se sentiam os annos, os ratos e o oleo dos cabellos reaes.